Seguidores

Para Que Vim


Esse blog tem como objetivo difundir a Música Popular Brasileira em geral, seja ela qual for: a música do Sul, a musica do Cariri, a Pajeuzeira ou mesmo outros ritmos de regiões diferenciadas. Nasci no Sertão do Pajeú, lugar onde a poesia jorra com muita facilidade e que os Poetas do Repente cospem versos com uma precisão incrível. Sempre tive esta curiosidade de fazer postagens e construir um blog. Aliás, criar um blog é simples e rápido, mas, o difícil mesmo é mantê-lo vivo e pulsante. Uma tarefa difícil e tem que ser feita com muita dedicação e precisão, sei que às vezes agradamos a uns e desagradamos a outros; também pudera, não somos perfeitos e isso acontece em todas as áreas e campos de trabalho. E para que o blog aconteça, tenho que desafiar o meu tempo e fazer propagar até aqueles que acessam e fazem aquisições de temas no gênero da música, da poesia e outros segmentos da cultura brasileira. Não tenho a experiência de um Blogueiro profissional, mas, como se diz: “Experiência só se conquista com tempo, perseverança e dedicação”. É isso aí, espero que curtam esse espaço que faço com exclusividade para vocês.


Obs.: Do lado direito do seu monitor adicionei uma rádio (Cantigas e Cantos) com a finalidade de que você leia e ao mesmo tempo ouça uma seleção musical exclusivamente feita por mim. Também inserí fotos Antigas da Capital da Poesia (S. José do Egito), fotos retiradas do Baú do Jornalista Marcos Cirano.


Texto: Gilberto Lopes

Criador do Blog.

domingo, 16 de agosto de 2015

Literatura de cordel: "A chegada de Frei Damião no Céu", um folheto de Valentim Martins Quaresma Neto














A Deus, o Pai Poderoso
Peço a inspiração
Pra prestar uma homenagem
Ao Frade do sertão,
O defensor da verdade,
Meu Santo Frei Damião.
Frei Damião de Bozanno
Em outra terra nasceu,
Seu país é a Itália,
Mas, Jesus o escolheu
Pra comandar um projeto
De interesse meu e seu.
O projeto de Jesus
Feito aqui para o sertão
De chamar os nordestinos
Para o amor e conversão,
A concórdia e a caridade,
A fé e a confissão.
O respeito ao casamento,
A reza e a devoção,
O amor ao batismo
Que é um dever do Cristão.
Foi para isso que veio
O homem frei Damião.
Ao chegar no Nordeste,
Jesus Cristo lhe ensinou,
Deu-lhe paz e paciência,
Perseverança e amor
E o projeto de Jesus
O Frade realizou.
Quem ouviu sua palavra
Através de seu sermão,
Sabe o quanto ele lutou
Em favor da conversão.
Foi contra o adultério,
Pregou a libertação.
Qualquer nordestino lembra
De suas Santas Missões:
Das crismas, dos batizados,
Das missas e dos sermões,
Das rezas, dos casamentos,
Das filas pra confissões.
A sua voz rouca e forte
Pregando a Bíblia Sagrada,
Jamais será esquecida
Porque era abençoada.
E as belas “Marchas Santas”
Feitas pelas madrugadas.
– “Senhor Deus, misericórdia”
Dizia Frei Damião.
Pregava a paz e o amor,
A tolerância e o perdão.
Pedia sempre ao Pai:
Livrai-nos da tentação.
Conhecia muito bem
As coisas do meu sertão.
Até sobre o inverno
Ele dava opinião.
Os nordestinos pediam
E ouviam a previsão.
O trabalhador sofrido
Assistindo à pregação
Ficava mais animado
Ao ouvir o seu sermão,
Renovava as esperanças
Dentro do seu coração.
Mesmo sem boa saúde
E apesar da idade,
O capuchinho rezava
Nas Missões pelas cidades.
Ao lugar que visitava
Levava felicidade.
Bom conselho, amor e paz,
Conforto, ânimo e carinho
Nos dava Frei Damião.
Do mais jovem ao velhinho,
Quem estava na escuridão
Ele mostrava o caminho.
Paciente, sábio e honesto,
Das ovelhas, bom pastor.
Assim foi Frei Damião
Por ordem do Criador,
E está entre os grandes homens
Que a humanidade gerou…
Mesmo com tanta bondade
Sofria perseguição
Como sofreu Jesus Cristo,
Filho do Pai Abraão.
Mas, o povo é testemunha
De sua dedicação.

E como tudo na vida
Tem um começo e um fim,
Numa tarde sertaneja
Chegou a notícia ruim:
“Frei Damião está doente
E a doença é grave sim”.
O frade caiu doente,
O sertão logo parou.
E depois de internado
Sua saúde se agravou
E o povo nordestino
Entristeceu e chorou.
No céu não foi diferente,
Só se ouvia o comentário:
“Estava muito doente
O Santo Missionário”.
E os Frades Capuchinhos,
Juntos rezaram o Rosário.
E o anjo Gabriel,
Disse para o Criador:
– Tenho notícias da Terra,
Frei Damião piorou,
De repente se chegar
Nada a gente preparou.
O Pai eterno ordenou:
– Vá e procure Jesus,
Comece a se preparar
E encher o céu de luz
E avise a São Francisco
Que pode enfeitar a cruz.
E por favor Gabriel,
Ornamente com narciso
Que Frei Damião merece,
Procure o que for preciso:
A luz, a cor e o som
E enfeite o paraíso.
Convoque todos os Santos
Pra saírem em procissão:
Na frente vai São Francisco
Com o Cruzeiro na mão
E convide pra tocar
Gonzaguinha e Gonzagão.
As cores do arco-íris
Também devem estar presentes
E aquelas que aparecem
No Nascente e no Poente,
Quando o sol está se pondo
E chamam a atenção da gente.
Tudo o que foi combinado,
Imediato foi feito.
Jesus Cristo trabalhou
Com coragem e respeito
Até que o céu ficou pronto,
Melhor dizendo, perfeito…
Dia trinta e um de maio
Do ano noventa e sete.
O sol estava morrendo,
Lá nas bandas do Oeste,
Também morria em Recife
Nosso Santo do Nordeste.
Eram seis horas da tarde
Quando o santinho partiu.
Frei Damião dos conselhos
Nas madrugadas de frio…
Houve muito choro e pranto
Porque seu povo sentiu.
O corpo ficou na Terra,
Mas, a alma viajou.
Precisava prestar conta
Ao nosso Pai Criador.
E os fiéis nordestinos,
Choram suportando a dor.
O Pai Eterno falou
Ao povo celestial:
– Frei Damião de Bozanno
É um homem especial,
Sempre defendeu o bem
E lutou contra o mal.
Até São Pedro já sabe,
São Francisco e São Miguel,
Que ele com sua bondade
E seu espírito fiel,
Possui a cópia da chave
Daqui da porta do céu.
Frei Damião foi chegando
E todo o céu aplaudiu,
Mesmo estando com a chave,
Parou um pouquinho e riu…
São Pedro correu depressa
Pegou na porta e abriu.
O Frade entrou no céu,
Um anjo bateu num sino.
O céu estava repleto
De devotos nordestinos,
E então deram início
Ao cerimonial divino.
A grande festa no céu
Começou nesse momento:
São José e Jesus Menino
A cavalos num jumento
Foram ao encontro do Frade
E lhe deram os cumprimentos.
O povo estava esperando,
Todos com velas nas mãos,
O céu bastante enfeitado
Pra grande celebração.
E soltaram muitos fogos
Como em noite de São João.
Depois do grande encontro
Começou a caminhada,
Como aquelas que fazia
O Frade de madrugada.
E o coral foi puxado
Por Maria Imaculada.
O Frade fez o sermão
Agradecendo aos Santos
Pela boa acolhida,
O céu estava um encanto.
Quando falou no sertão
De saudades foi ao pranto…
Ao fim da caminhada
E da boa recepção,
Os sinos foram soando
Chamando a população
Porque estava na hora
Da grande reunião.
E o povo foi depressa,
Pois, todos queriam ver
Alguns Santos perguntarem
E Frei Damião responder
As notícias do Nordeste,
Muitos queriam saber.
Todos os anjos do céu
Levaram Frei Damião
Ao centro do paraíso
Para um bonito salão
Pra responder as perguntas
Da santa reunião.
Quem abriu a cerimônia:
Padre Cicero Romão,
Depois de um forte abraço
Que deu em Frei Damião
E os dois juntos choraram
Ao falar do sertão.
O Padre pediu silêncio
Pra reunião começar,
Milhares de nordestinos
Ficaram a escutar,
Padre Cícero mandou
São Francisco perguntar.
São Francisco perguntou:
– E o Brasil como está?
Frei Damião respondeu:
– Dá vergonha até falar,
Tem desmantelo demais,
Só o Pai pode salvar.
Lá a partilha dos bens
É uma bagunça danada,
Poucos com quase tudo
E o resto vive sem nada,
Por isso, a fome campeia,
A nação está acabada.
Justiça lá não existe,
Só mesmo quando Deus manda.
O povo só fala em festa
Em carnaval e em banda,
A novela e o futebol
Vão conquistando a demanda.
A violência campeia,
Fala-se pouco de paz,
Gasta-se muito com armas
E com drogas muito mais,
Por isso, a nação inteira
Está andando pra trás.
A política não é séria,
CPI, tem uma lista,
Escândalos, outro bocado
E os políticos são artistas
Roubam o dinheiro do povo
Não deixam nenhuma pista.
O São José Operário
Levantou logo a questão:
– Estão dizendo na Terra
Que o senhor deu proteção
A muitos desse políticos,
Isso é verdade ou não?
Frei Damião respondeu:
– O povo sabe quem sou,
Dediquei a vida inteira
Ao serviço do Senhor
Que foi pregado na cruz
E a todos não agradou.
Muitos homens da política
Se encostaram em mim
Pra ganhar as eleições.
Aceitei, achando ruim,
Não discriminei ninguém,
Pois, achei melhor assim.
Mostravam-se meus amigos
Pondo as mãos no meu pescoço.
Com palavras tão bonitas
Que só de ouvir dava gosto,
Porém, depois de eleitos,
Davam-me grandes desgostos.
Um até me prometeu:
– “Frei Damião, se eu ganhar
Dou camisa a quem não tem
E terra pra trabalhar,
Prometo que no Brasil
Não fica um só marajá”.
Como qualquer cidadão,
Dei um voto de confiança.
Depois que ele ganhou,
Acabou minha esperança,
Fez pior do que os outros
Fez uma grande lambança…
Mas, toda a minha jornada
Dediquei à pregação,
Enquanto estive na terra
De alma e de coração,
Sempre ao lado dos pobres
Cumprindo a minha missão.
E do povo nordestino
Conquistei o coração
Fui bem aceito e querido
Do litoral ao sertão,
Por isso, alguns políticos
Buscaram aproximação.
Padre Cícero falou
Com o microfone na mão:
– Sei que já faz muito tempo
Que eu deixei o sertão.
Já falavam num projeto,
Chamado “irrigação”.
E agora eu pergunto:
Se o projeto já chegou,
Se a miséria foi embora
E a fome, já acabou?
Ou se o sertão ainda sofre
Com a seca, aquele pavor?!
E Frei Damião ficou
Quase sem poder falar…
Disse: – “A seca ainda existe
E ainda mata por lá”.
O céu ficou em silêncio
Sem querer acreditar.
Nenhum governo fez nada
Pra sequer amenizar
A fome do nordestino
Quando a chuva faltar.
Só dão mesmo as esmolas
Quando tem seca por lá.
Só em tempo de eleição
A região é lembrada
Para ouvir as promessas
Enganosas, deslavadas.
Quando os políticos ganham,
Somem e não fazem nada.
Cada ano um projeto
E muitas reuniões:
Falam, falam e nada fazem,
Ficam faltando as ações.
Enquanto isso, o pobre
Perde suas plantações.
Perde também a coragem
E a vontade de viver
Naquele lugar sofrido
E foge pra não morrer,
Vai para as grandes cidades,
Continua a padecer…
E São José Operário
Voltou a querer falar:
– O governo quer a fome
E a miséria por lá
Porque o povo com fome
É mais fácil de comprar.
Quem vive em grande miséria,
Sem acesso à educação,
Quase não entende nada,
É isso, Frei Damião!
Lá o povo troca o voto
Por um pedaço de pão.
São Francisco de Assis
Começou logo a chorar,
Frei Damião ficou triste,
Não pôde continuar…
Aí chegou o momento
Da reunião terminar.
Padre Cícero pediu
“Viva” pra Frei Damião,
Houve uma salva de palmas
Que estrondou no salão
E eu me acordei suado
Com o travesseiro na mão.
Valentim Martins Quaresma Neto
Repentes, motes e glosas - Pedro Fernando Malta
Jornal Besta Fubana

2 comentários: