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Esse blog tem como objetivo difundir a Música Popular Brasileira em geral, seja ela qual for: a música do Sul, a musica do Cariri, a Pajeuzeira ou mesmo outros ritmos de regiões diferenciadas. Nasci no Sertão do Pajeú, lugar onde a poesia jorra com muita facilidade e que os Poetas do Repente cospem versos com uma precisão incrível. Sempre tive esta curiosidade de fazer postagens e construir um blog. Aliás, criar um blog é simples e rápido, mas, o difícil mesmo é mantê-lo vivo e pulsante. Uma tarefa difícil e tem que ser feita com muita dedicação e precisão, sei que às vezes agradamos a uns e desagradamos a outros; também pudera, não somos perfeitos e isso acontece em todas as áreas e campos de trabalho. E para que o blog aconteça, tenho que desafiar o meu tempo e fazer propagar até aqueles que acessam e fazem aquisições de temas no gênero da música, da poesia e outros segmentos da cultura brasileira. Não tenho a experiência de um Blogueiro profissional, mas, como se diz: “Experiência só se conquista com tempo, perseverança e dedicação”. É isso aí, espero que curtam esse espaço que faço com exclusividade para vocês.


Obs.: Do lado direito do seu monitor adicionei uma rádio (Cantigas e Cantos) com a finalidade de que você leia e ao mesmo tempo ouça uma seleção musical exclusivamente feita por mim. Também inserí fotos Antigas da Capital da Poesia (S. José do Egito), fotos retiradas do Baú do Jornalista Marcos Cirano.


Texto: Gilberto Lopes

Criador do Blog.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Poesia: "Encontrei um pedaço de saudade No terreiro da casa que morei"., um poema do poeta Antônio Carneiro




ENCONTREI UM PEDAÇO DE SAUDADE
NO TERREIRO DA CASA QUE MOREI

Regressei ao lugar que fui criado
Como quem vai cumprir um juramento
Avistei os arreios do jumento
Pendurados na cerca do cercado.
No curral que papai trancava o gado
O chocalho da vaca eu procurei
Bem ao lado da casa encontrei
Os resquícios da minha mocidade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

Avistei o meu cabo de enxada
Encabando uma velha Tramontina
A ferrugem comendo a lamparina
E uma cela de couro empoeirada.
Mas chorei quando vi uma latada
E o cavalo de pau que eu montei
No cavalo da História disparei
Retornei aos quarenta de idade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

Encontrei bem no "pé" do casarão
O meu carro de flandre na poeira
Adentrando avistei uma roqueira
Dos folguedos de noite de São João.
Vi meu rádio de pilha campeão
Meu cachorro de caça não achei
Mas a cama velhinha que deitei
Inda mora comigo na cidade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

Vi pedaços de bola canarinho
Enganchados em cima do telhado
Vi um saco de estopa amarelado
Que a galinha de mãe fazia ninho.
A "camisa" bonita do meu pinho
Que nas noites de lua dedilhei
O balanço que um dia despenquei
Lembrarei para toda eternidade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

Na "sapata" da casa eu vi salina
Vi "bezerros" de osso no oitão
Vi pegadas de gado pelo chão
Num aceiro a carcaça da turina.
Recordei de uma tarde de neblina
Da arapuca no mato que armei
Quando vi a chinela que calcei
Relembrei toda minha castidade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

No oitão também vi uma balança
Onde a pedra de quilo era o peso
Um arame farpado que era teso
Uma estaca apontada como lança.
O sapato que eu ia numa dança
O sabugo de milho que usei
Pra fazer o chiqueiro que criei
Pra prender toda aquela liberdade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

A gamela que pai tomou um banho
O cacete assassino de uma rês
Algaroba, um angico, dois ipês
Que serviam de sombra pro rebanho.
Vi um prato branquinho de estanho
A rural de madeira que ganhei
Vi o cinto de pai que apanhei
Com requinte de pura crueldade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

A cumbuca de mãe guardar azeite
Enxerguei pendurada no pereiro
Avistei lá em cima do chiqueiro
A caneca que pai tirava leite.
A cabeça de vaca como enfeite
Que um dia na cerca enganchei
Vi um banco velhinho que sentei
E o cupim só deixou uma metade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

Encontrei um pedaço de cocão
Uma mesa de carro sem fueiro
Uma roda, tarugo e um tamueiro
Do transporte mais belo do Sertão.
Uma tira de pano e um botão
Uma agulha de saco que comprei
E a Monark que tanto pedalei
Eu garanto de Vê-la ter vontade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

Uma tampa de vinho indiano
Com o rótulo do índio Jurubeba
O cotoco do rabo de um peba
A moldura do nosso Soberano.
Uma quarta da peça de um pano
Que num ano de safra eu comprei
E uma braça de terra que enterrei
As agruras da minha enfermidade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

A cangalha surrada do jerico
Pendurada no torno da parede
Candeeiro, pavio e uma rede
Um machado, uma foice, um maçarico.
Um martelo, uma mala e um pinico
Um gibão que um dia campeei
No cavalo rudado que esporei
Cavalgando a procura da verdade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

Caco velho que mãe torrava massa
Caldeirão pra botar milho de molho
Uma lasca de lenha e um ferrolho
Chaminé, um isqueiro, uma cabaça.
A garrafa verdinha de cachaça
Que papai dava trago, não traguei
Eu pensando em voltar inda pisei
Numa foto da minha identidade
"Encontrei um pedaço de saudade
No terreiro da casa que morei".

Glosa: Poeta Antônio Carneiro
Mote: Doutor Ricardo Moura.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Poesia: "Pássaro Rogaciano", um poema de Lucas Rafael em homenagem a Rogaciano Leite


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Foto: Arquivo/CentenarioRogacianoLeite

Pássaro Rogaciano
.
Tu partiste, ó grande vate
Aos quarenta e nove anos,
Levando para os espaços
Teus poéticos desenganos.
Mas tua escrita erudita
Venceu o tempo, é bonita,
Como o céu ao sol se pôr.
Tua obra vasta e humana
É densa - como a savana.
É livre - como um condor.

Como foste também livre
Na conduta e nos papéis.
Do tapete dos palácios
À mesa dos cabarés.
Inveterado boêmio,
Da vida fizeste um grêmio,
Na arte ergueste teus bustos.
Decantaste a liberdade
A favor da humanidade,
Por homens bons e mais justos.

Cristo ainda não desceu
Para nos salvar, Poeta.
E a mesa dos desgraçados
Amanheceu incompleta.
Incompleta de alimentos,
De saúde e mantimentos...
De até um simples pão duro.
E os flagelados disseram
Que até hoje ainda esperam
Por mais justiça e futuro.

A justiça e o futuro,
Que através de penas leves
Suplicaste em tuas rimas:
- “Governantes, sejam breves!
Olhem para os desgraçados,
Cada vez mais humilhados.
Que tragédia humana é esta?”.
Nem eu mesmo sei dar nome...
Mas nos carnavais da fome
Quem não come não faz festa.

Como todo bom boêmio
(Que ninguém aqui os risque),
Embebedaste as palavras
Em teus copos de uísque.
Teu intelecto bravio
Deixou-te forte e sadio,
Como um coqueiral em pé.
Teu cabedal sempre austero
Guardava os versos de Antero,
Cruz e Sousa e Baudelaire.

Pediste, ó vate, desculpas
Aos Poetas premiados,
Mas, no fundo, todos eles,
Apesar de renomados,
Não souberam como a vida
No Sertão é bem vivida,
Depois que a chuva lhe acha.
Nem provaram, no pagode,
Do cuscuz por sobre o bode
Chupando as bordas da graxa.

Ó bardo pajeuzeiro,
Imenso farol altivo,
Teu corpo foi decomposto,
Mas teu espírito está vivo.
Agora estás, sem entraves,
De braços com Castro Alves,
O teu mestre, teu mentor.
Ambos em um mesmo posto:
Da vida - lembrando o gosto
Do mundo - sentindo a dor.

Acorda, Rogaciano!
Ressurge com mais cobiça.
O mundo, cambaleante,
Não vê paz nem tem justiça.
O Ceará te conclama,
Pernambuco ainda te ama.
Não foi terminado o jogo.
Rasga o véu da tua insônia.
Vem olhar para a Amazônia
Se consumindo no fogo.

Por meio do jornalista,
E apurador mais fecundo,
Do Poeta e do boêmio,
Foste um cidadão do mundo.
Como nem tudo assim passa,
Colocaram-te na praça...
Tua imagem se renova.
E o teu nome se compara
A distancia que separa
Moscou de Cacimba Nova.

Do Pajeú tu te foste,
Tornaste um vate inconteste
(Dos afluentes do Norte
Aos carrascais do Nordeste).
Por mais que tenhas andado,
Levaste, eu creio, guardado,
O gosto amargo do umbu.
E em teus garbos colarinhos,
A poeira dos caminhos
Do Vale do Pajeú.
.
Lucas Rafael. 








CANTIGAS E CANTOS

terça-feira, 30 de junho de 2020

Poesia: "Nossa cama passou a ser pequena Com a insônia ocupando o seu lugar", um poema de Daniel Nunes

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Nossa cama passou a ser pequena
Com a insônia ocupando o seu lugar

Eu não venho dormindo e já faz dias
Que eu perco a paz quando me deito
Nosso leito deixou de ser perfeito
Para ser meu castigo em agonias
Fecho os olhos, me vem as nostalgias,
As lembranças tornaram-se um pesar
E agora sem nada o que faltar
A saudade aos poucos me envenena
Nossa cama passou a ser pequena
Com a insônia ocupando o seu lugar.

A carência tem sido a companheira
Que encontrei entre as minhas madrugadas
Em meu quarto sombrio noites geladas
Minha mente a mil pensa besteira
A lembrança catando igual peneira
Tudo aquilo que posso recordar
E o fantasma da dor a me assombrar
Não sossega enquanto não condena
Nossa cama passou a ser pequena
Com a insônia ocupando o seu lugar

Ouço o vento batendo nas janelas
Imagino você batendo a porta
A certeza do engano ali me corta
Perfurando meu peito faz sequelas
Eu querendo livrar-me das mazelas
Tento enfim o meu peito suturar
Mas o corte outra vez volta a sangrar
E o espectro da morte ali me acena
Nossa cama passou a ser pequena
Com a insônia ocupando o seu lugar

Daniel Nunes 

CANTIGAS E CANTOS

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Poesia: "Menina-moça", um soneto de Ivan Patriota de Siqueira

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Pra minha neta querida, pelos seus 13 anos, o meu beijo e abraço virtuais nesse dia e a certeza do que diz esse soneto:

MENINA-MOÇA

Como o tempo foi rápido, Giovana
Você hoje é menina-moça já
Isso faz mais o seu avô gagá
Vendo o quanto você é soberana.

Poderosa na luz que tanto emana
Da alegria que o seu olhar me dá
Da ternura que tanto em você há
Sem qualquer catabi, você é plana.

Sem qualquer exceção, você é plena
Você é bem mais doce que alfenim
Você tem um não sei quê de serena

Você tem no sorriso o encanto, enfim
Você vai sempre ser minha pequena
Mesmo o tempo indo tão ligeiro assim.



CANTIGAS E CANTOS

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Poesia: "Ilusões", um poema de Antônio Nunes


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ILUSÕES

Quem sai em busca de flores
No lugar onde não têm
Pode ser que encontre espinhos
Muito provável também
Voltar sem nenhum dos dois
Sem sentir cheiro depois
Sem se espinhar por ninguém

Quem na vida vai e vem
Pelo vale dos amores
Sem se furar nos espinhos
Que sempre provocam dores
Os pés nunca serão gastos
Pisando nos campos vastos
Do chão coberto de flores

Quem nunca sentiu as dores
Das marcas de uma paixão?
Quem nunca ouviu os acordes
Das cordas de um violão?
Quem nunca se embriagou
Sobre o resto que sobrou
No botequim da ilusão?

Nas noites de solidão
Quem não sentiu nostalgia?
Quem nunca buscou prazeres
Trocando a noite no dia?
Quem nunca apagou seus sóis
Deitado sob os lençóis
Dos tragos da boêmia?

Quem nunca na alegria
Dos carnavais não brincou?
Nos salões qual colombina
Sem frevar, se acomodou?
E qual o Pierrot ranzinza
Na quarta-feira de cinza
De saudade não chorou?

Autor: Antônio Nunes  

CANTIGAS E CANTOS

domingo, 21 de junho de 2020

A poesia de Aderaldo Ferreira de Araújo "Cego Aderaldo"




Aderaldo Ferreira de Araújo, mais conhecido como “Cego Aderaldo” um dos maiores cantadores da poesia popular nordestina (1878-1967)
* * *
Cego Aderaldo

(Atendendo a um pedido do Padre Cícero)

À ordem do meu padrinho
Vou colher algumas flores…
Fazer minhas poesias
Cheias de grandes louvores
Saudando, primeiramente,
A Santa Virgem das Dores.

O nome do santo Padre
Anda pelo mundo inteiro,
A cidade está crescendo
Com este povo romeiro,
Devido às grandes virtudes
Do santo de Juazeiro.

Nossa Senhora das Dores
É que nos dá proteção,
Ordena ao nosso bom Padre,
E ele cumpre a Missão,
Ensinando a todo mundo
O ponto da salvação.

Deixo aqui no Juazeiro
Todos os sentidos meus
Juntamente ao meu Padrinho
Que me limpou com os seus,
Vou correr por este mundo
Levando a bênção de Deus.

Cego Aderaldo


JORNAL BESTA FUBANA