CD
“Enredo” traz 24 composições feitas para a Aprendizes da Boca do Mato e Unidos
de Vila Isabel
RIO
- Carlos Gomes era o enredo da Aprendizes da Boca do Mato para o carnaval de
1957. Martinho (que anos depois se tornaria famoso como “da Vila”, pegando
emprestado o nome da escola de samba que abraçaria, Unidos de Vila Isabel),
jovem compositor da comunidade, ainda não chegado à casa dos 30, leu uma
reportagem sobre o homenageado e decidiu fazer um samba juntando aquelas
informações. Não pensava em concorrer. Afinal, naquele tempo, como lembra o
próprio artista, “quem fazia samba-enredo eram os antigos da escola”. Mas
mostrou a música aos amigos.
— O pessoal gostou — conta Martinho. — Tinha um compositor
chamado Tolito que pediu para eu cantar o samba para ele. Anotou, passei a
letra certinha e tal. No dia em que os compositores iam apresentar os sambas,
ele começou a cantar o meu. Achei estranho, pensei que ele ia mostrar o dele
depois. Mas ele terminou e falou: “Este samba é do menino ali, vou retirar o
meu e apoio este”. Os outros três concorrentes fizeram a mesma coisa, e aí eu
ganhei sem disputar.
O samba aclamado, gravado agora pela primeira vez, abre o
CD “Enredo” (Biscoito Fino). No álbum, Martinho registra 24 sambas-enredo, feitos
para a Boca do Mato e a Vila. A lista vai de “Carlos Gomes” até “A Vila canta o
Brasil, celeiro do mundo, água no feijão que chegou mais um” (campeão de 2013).
E inclui todos os sambas-enredo compostos por Martinho — com exceção dos que
ficaram perdidos na memória (“Dos sete sambas de enredo meus de desfiles da
Boca do Mato, só consigo cantar quatro”, escreve ele no encarte). E teve ajuda
para recuperar
— A ideia era gravar para fazer um documento particular
com os sambas inéditos — diz o cantor. — Mas o (filho do artista e gerente
artístico da Biscoito Fino) Martinho Filho sugeriu misturar tudo e
fazermos um disco bonito, para lançar. O projeto foi crescendo, e vão sair em
abril um DVD (com bastidores da gravação e depoimentos de Martinho sobre os sambas)
e um livro, “Sambas e enredos”, sobre a minha história como compositor das
escolas.
Afinado com “Enredo” mas independente dele, o documentário
“O samba” foi exibido nesta semana em Berlim. O filme, do franco-suíço Georges
Gachot (diretor de “Música é perfume”, sobre Maria Bethânia, e “Rio sonata”,
sobre Nana Caymmi), tem Martinho como guia de uma jornada pela dinâmica das
escolas (por meio da Vila), do carnaval e do próprio samba.
— Pelos meus filmes, você nota que minha bagagem sempre
foi a música clássica, o jazz ou a canção romântica — explica Gachot. — Eu
achava que o samba estava distante da minha ideia de beleza na música, com a
qual cresci ao longo da vida e do trabalho. Eu era muito influenciado pelos
clichês que existem fora do Brasil sobre o samba. Então um dia um amigo me deu
o CD “Martinho canta Noel”. Isso foi uma revelação e o início do projeto.
Descobri pela voz de um grande cantor um lado do samba de que eu nem
suspeitava. Percebi que o samba não tem o respeito que merece no exterior, e meu
filme deveria corrigir isso. Samba não é só carnaval, caipirinha, mulheres na
praia.
Driblar os clichês é vocação de Martinho. Seu olhar sobre
“Enredo” reafirma isso: “não é um típico disco de samba-enredo”.
— Em vez da pompa da bateria, que é o esperado num disco
de samba-enredo, me preocupei mais com a harmonização, para destacar a riqueza
melódica e as pessoas poderem ouvir as letras — avalia o compositor.
Muitos arranjos remetem aos enredos, como a latinidade de
“Por ti América” e a charanga de “Vila Isabel anos 30”. A filha Maíra Freitas
assina dois deles, além de tocar teclados e cantar. Os irmãos dela (Mart’nália,
Analimar, Martinho Tonho, Juju Ferreirah e Tunico da Vila) também estão no
disco, assim como Beth Carvalho, Alcione e o estreante Samba do Barão.
Um inovador no gênero, Martinho mostra isso na poética de
“Sonho de um sonho” e também na coloquialidade:
— Em “IV séculos de modas e costumes”, tirei palavras como
“magistral”, “céu de anil" (risos). E “Glórias gaúchas” tem até um “incrementada”.
Martinho lança o CD nos dias 26 e 27, na Miranda. Além do
filme de Gachot e de seu disco/DVD/livro, o artista se espalha. Entre março e
maio, ele viaja ao lado de Roberta Sá, Diogo Nogueira e Alcione com um show
sobre a história do samba. E, neste fim de semana, a modernidade de Martinho é
reafirmada em show de Otto em São Paulo, sobre o álbum “Canta, canta minha
gente".
— O que mais me impressiona em
Martinho é sua contemporaneidade — diz Otto.
LEONARDO LICHOTE
O GLOBO
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