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| Parceria entre Seixas e Claudio Roberto foi engavetada, repaginada e lançada com o nome de Por quem os sinos dobram dois anos depois. Foto: Arquivo/DN. |
O Correio/Diario teve acesso aos versos de A loucura de Eva. Apesar de menosprezada pelo roqueiro, ela permaneceu intacta na memória de Claudio Roberto e de Tania Menna Barreto, companheira de Raul na segunda metade dos anos 1970. Foi ela quem cantou, ao telefone, a música original. A história da composição inédita havia sido citada no documentário Raul — O início, o fim e o meio (2012), no qual o refrão é entoado por Claudio. É a primeira vez, entretanto, que outros trechos da composição chegam ao grande público.
O carioca Claudio Roberto conheceu Raul quando tinha 11 anos e se tornou compositor por influência dele. Desde 1977, vive retirado em um sítio na zona rural de Miguel Pereira (RJ). Aos 61 anos, disse não saber, e nem se importar, com a razão pela qual A loucura de Eva não ter sido gravada. “Isso, ele levou para o túmulo”.
Sylvio Passos, fundador do primeiro fã-clube oficial de Raul, conhece as letras, mas discorda de Tania. “O texto de Por quem os sinos dobram é muito mais impactante e atemporal do que o de A loucura de Eva. Acho que Raul não curtiu muito. É interessante a brincadeira com Darwin, mas penso que optou por uma coisa mais ampla”.
Quando Raul cantou a música para Luiz Silveira, disse a ele que gostava muito do refrão, mas nem tanto do restante da poesia. “E eu, ousadamente, pedi pra tentar mudar”, diz o fã, hoje produtor cultural, aos 53 anos. Raul deixou. O resultado é Em quem Eva mamou?, inspirada na temática original e com refrão semelhante, mas de melodia diferente. A faixa foi colocada no YouTube há semanas, com vocais de André 14 Voltas, e deu início ao resgate da história.
Veja clipe da faixa Em quem Eva mamou?
Por quem os sinos dobram, mesmo título do romance do norte-americano Ernest Hemingway, segue a linha de auto-avaliação e encorajamento. A original, de viés feminista, ressalta a importância de Eva na origem do homem. Foi por esse caminho que Luiz Silveira seguiu. “Fiz o que Raul me pediu: mantive o refrão e mudei todo o restante, enaltecendo a figura da mulher. Em Por quem…, aproveitou duas sequências de notas da original e, no refrão, em vez de ‘bobagem’, pôs ‘coragem’”.
Silveira demorou muitos anos para mostrar o que tinha feito a Raul, mas diz ter tido a aprovação dele no camarim de um show com Marcelo Nova, no Rio, já no fim da vida do ídolo. O último suspiro de Raul nos palcos, parte desta mesma turnê, aconteceu em Brasília, há exatos 24 anos. O roqueiro seria encontrado morto em seu apartamento em São Paulo, em 21 de agosto de 1989, aos 44 anos.
Compare os trechos:
A loucura de Eva
(Primeira estrofe e refrão da composição inédita de Raul Seixas e Claudio Roberto)
"Ninguém tem certeza
a respeito da origem do homem
Pois a vida não começou onde
a história começa
Mil teorias, é gente falando à beça
E tudo que me oferecem tá sempre faltando uma peça
(…)
Bobagem, bobagem, pensar que o homem nasceu de um macaco qualquer
Bobagem, bobagem, o homem
nasceu da mulher"
Por quem os sinos dobram
(Primeira estrofe e refrão da parceria de Raul e Oscar Rasmussen, gravada em 1979, com a mesma melodia anterior)
"Nunca se vence uma guerra lutando sozinho
Cê sabe que a gente precisa entrar em contato
Com toda essa força contida e que vive guardada
O eco de suas palavras não repercutem em nada
(…)
Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz
Coragem, coragem, eu sei que você pode mais"
Em quem Eva mamou?
(O fã Luiz Silveira se aproveitou do refrão da versão original para, com autorização de Raul, criar uma
nova canção)
"(…) Dão sempre a ela o papel de vilã
E ele o Narciso, macaco galã
Se é paraíso, pra quê sutiã?
Com ou sem leite, se entregue ao deleite
Aproveite o prazer da maçã
(…)
Bobagem, bobagem, bobagem, bobagem
Dizer que o homem veio de um macaco qualquer
Bobagem, bobagem, bobagem, bobagem
O homem veio mesmo foi de uma mulher".
Gabriel de Sá - Correio Braziliense

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