palavra "carbono" já fazia parte da sua coleção pessoal há bastante tempo. Desde quando cursava Engenharia Química, a sonoridade e o relevo dessas sete letras atraíam o "cantautor". Mais do que isso. Na alotropia, capacidade do carbono de rearranjar elementos distintos, criando moléculas com propriedades diversas, ele enxergava motivo suficiente para entregar-se de forma poética a esta ligação. E se entregou.
"Uma tsunami!". É assim que o pernambucano Lenine responde ao primeiro questionamento sobre o processo que envolveu a produção do novo trabalho, que será apresentado ao público fortalezense na noite de sábado, 9, na Praça Verde do Dragão do Mar. Dois meses de trabalho e o disco já estava masterizado em março, com a data do show de lançamento marcada para o dia 30 de abril.
Essa pressa, explica, deveu-se ao fato de ele sentir uma necessidade de "exorcizar" o projeto anterior. "Tive que amputar do meu futuro o 'Chão'. Se eu não amputo, até agora estava fazendo. Mesmo que tenha sido bacana como ele reverberou, eu precisava de um repertório novo, que originasse um show diferente", reconhece. Da inquietação, nasceu "Carbono".
Fusões
Com gravações realizadas por Rio, São Paulo, Salvador e Amsterdã, o disco traz novidades como "Capim de Ferro", primeira música feita em conjunto com os conterrâneos do Nação Zumbi; a parceria com o holandês Martin Fondse e sua orquestra, em "O universo da cabeça do alfinete"; e também com a orquestra brasileira Rumpilezz, presente na canção "À Meia Noite dos Tambores Silenciosos". As músicas dialogam sob a égide do carbono, numa espécie de romance musical.
Cada faixa carrega, no entanto, um elemento diferente que confere ao disco diversidade dentro de uma unidade. Não dá para sentir falta dos toques do maracatu ou do frevo pernambucanos, tampouco das batidas do rock e até mesmo do samba. Está tudo ali, bem combinado num universo plural de criação.
É a primeira vez que disco e show são lançados simultaneamente por Lenine. Mas cada um carrega consigo uma peculiaridade. O processo de "alotropia" dos dois envolve o rearranjo de "elementos" distintos. "No disco, eu me permito experimentar sem barreiras. Toco com quem nunca toquei, mas sempre admirei, experimento parcerias novas e reafirmo as antigas, mas procuro outros sons que ainda não foram feitos", explica.
Depois, vem a adequação e a adaptação para o universo imediato do palco, que, segundo ele, é o melhor de tudo. "A apresentação traz uma turma que me ajuda nesses processos há muitos anos. Só o Pantico Rocha já tem mais de duas décadas. Na equação do show, a coletividade é muito importante, a autoralidade de cada um dos músicos. É nessa hibridade que criamos um produto quase novo, extraído a partir do disco que existe", admite.
Em "Chão", somente Bruno Giorgi e JR Tostoi acompanhavam Lenine. O retorno do baterista Pantico e do baixista Guila ressignifica o projeto recém-lançado. "Eu estava carente desse núcleo duro que é a banda. É bom estar de novo com eles", confessa.
Apresentação
O repertório do show vai além das 11 faixas do novo disco, estendendo-se por aproximadamente 25 canções. Lenine adianta que muitos sucessos ficaram de fora. Não se programe para ouvir "Jack soul brasileiro", "Paciência", "Hoje eu quero sair só" e "Leão do Norte", por exemplo. Aliás, cá entre nós, quem gritar mais alto consegue pelo menos uma ou duas dessa bem-sucedida safra. Mas não mais do que isso.
"Olho de peixe", "Magra", "Sonhei" e "Candeeiro encantado", essas sim têm tempo garantido na apresentação de sábado. "Como pai, quero mostrar os filhos todos", brinca orgulhoso.
Vale destacar ainda a bandeira da sustentabilidade que prevalece no show. A designer Natália Lana assina o cenário junto com o light designer Robson de Cassia, também responsável pelo projeto de iluminação. Em cena, lâmpadas Nokero (ou seja, "non kerosene"), abastecidas somente por energia solar, fibras naturais, fitas cassete e pneus reciclados.
O impacto ambiental da turnê será compensado com um projeto de neutralização das emissões de CO2 através do plantio de árvores. "Tudo isso tem a ver com a sensação e a certeza de que o que faço vai além do entretenimento", garante. É assim, "solene, terreno, imenso; perene, pequeno, humano", como nos versos feitos com o filho João Cavalcanti, que ele segue grafitando caminhos.
Mais informações:
Lenine apresenta a turnê "Carbono", na Praça Verde do Dragão do Mar, neste sábado, 9, às 23h. Abertura dos portões às 20h, com apresentação do Dj André Wesausk e encerramento com David Duarte. Ingressos à venda na bilheteria virtual: R$40 (pista meia) e R$ 80 (pista inteira); R$ 60 (front meia) e R$ 120 (front inteira). Contato: (85) 3488-8600.
Roberta Souza
Repórter
Diário do Nordeste
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