
Para pensar a cena cultural brasileira diluída entre as décadas de 1960 e 1990, existe uma figura fundamental. E não é "só" por ter lançado Roberto Carlos, descoberto Elis Regina ou produzido disco para Clara Nunes, mas também por envolver-se diretamente com o cinema, o teatro e a televisão, abarcando, em pouco tempo, um verdadeiro império. Aliás, é exatamente isso que sugere o sobrenome do show business brasileiro Carlos Eduardo da Corte Imperial.
O capixaba de Cachoeiro de Itapemirim, se estivesse vivo, comemoraria em 2015 seus 80 anos. Seu estilo expansivo não deixaria a data - 24 de novembro - passar em branco; na verdade, seria preciso mesmo todos os meses do ano para dar conta de tanto encontro e festejo. Em conexão com este processo, no mês de abril foram lançados a segunda edição de sua biografia, escrita por Denilson Monteiro (autor de outra, sobre Cartola e Chacrinha), e um documentário dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, baseado no mesmo livro.
Os produtos tentam dar conta de uma vida irreverente, coberta de fatos inusitados, polêmicas, mentiras que ele inventava para aparecer na mídia e incontáveis casos de amor. Diz-se, por exemplo, que Imperial chegou a morar com 20 amantes, em Copacabana. Foi no mundo artístico que ele descobriu uma boa maneira de chamar a atenção das mulheres; estas que, juntas com o refrigerante e o trabalho, eram seus únicos vícios. Sem álcool, sem drogas.
A segunda edição da biografia "Dez! Nota Dez! Eu sou Carlos Imperial", de Denilson Monteiro, carrega um título em referência clara ao bordão criado pelo produtor na apuração das escolas de sambas cariocas. O livro, cuja primeira edição foi lançada em 2008, apresenta nas atuais 408 páginas algumas das histórias mais marcantes dessa trajetória embalada por hits compostos pelo próprio personagem.
"Mamãe passou açúcar em mim", "A Praça", e "Você passa e eu acho graça", esta última em parceria com Ataulfo Alves, são apenas alguns dos exemplos de sucesso ligados à enigmática figura de Imperial. "Ele era um cara muito interessante, que me atraía desde que eu era criança, e que merecia um livro sobre sua vida. Um dia, um amigo me levou ao arquivo do Jornal do Brasil, onde encontrei muitas coisas sobre o Imperial. Escrever sobre ele tornou-se quase minha missão", destaca Denilson.
Trajetória
Na biografia, além de acompanharmos um pouco sobre a passagem de Imperial pela música, estando ele envolvido com o lançamento de nomes como Wilson Simonal e Tim Maia, temos contato ainda com os projetos pessoais do produtor, tais como o desenvolvimento do estilo musical "pilantragem" ao lado da Turma da Pesada (Paulo Moura e Wagner Tiso), com referências do rock e do soul norte-americanos.
Denilson também contempla a atuação de Imperial na televisão, em programas como "Meio-dia" e "Barra limpa" , na TV Tupi e "O Bom", na TV Excelsior. A participação de Carlos em filmes como "O Petróleo é nosso", de Watson Macêdo, e na bem-sucedida pornochanchada "A Viúva Virgem", ou mesmo sua colaboração teatral na "Paixão de Cristo de Nova Jerusalém" também ganham destaque.
"Perdi a conta de quantas entrevistas eu fiz. Foram mais de 200, desde presenciais até depoimentos enviados por email. Eu fazia de tudo para conseguir informação. Cheguei a ficar na cinemateca do Museu de Arte Moderna de São Paulo durante semanas, aprendendo a limpar fitas de vídeos com programas dele", recorda o escritor sobre o processo que, para a primeira edição, teve início em 2001.
O biógrafo salienta que, na nova edição, o público poderá conhecer mais sobre a carreira política de Imperial, que além de vereador do Rio de Janeiro, sofreu com uma derrota na campanha para deputado estadual que o levaria à depressão. Sua morte seria precoce, aos 55 anos, após uma operação malsucedida para a retirada do timo.
Audiovisual
O livro de Denilson serviu como base tanto para o documentário "Eu sou Carlos Imperial", que estreou em abril na programação do Festival "É tudo Verdade", como também para um musical que está sendo produzido pelo autor e diretor Aloyzyo Filho. Em ambos, o escritor tem marcado presença, auxiliando desde a construção dos roteiros até o trabalho de revisão.
Um longa-metragem também deve ser realizado em parceria com o cineasta Pedro Rovai. Mas, para este, Denilson ainda não tem previsão de datas. Segundo o escritor, frente a isso tudo, Imperial poderia ter duas reações. "Talvez ele me agradecesse ou talvez ele quisesse que eu usasse meias brancas, um jeito que ele tinha para definir os otários", brinca. Mas, dada a impossibilidade deste retorno, é com o reconhecimento dos filhos do personagem que ele pode ficar. "Eles dizem que fui a última descoberta de Carlos. Gosto de acreditar nisso", conclui.
Livro
Dez ! Nota Dez ! Eu Sou Carlos Imperial
Denilson Monteiro
Planeta
2015, 408 páginas
R$ 54,90
Roberta Souza
Repórter
Diário do Nordeste
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