Ler um poeta, muitas vezes, é ler também o que ele leu antes – que autores o emocionaram, o chocaram e o inspiraram. Normalmente, o público só tem acesso aos versos preferidos de um autor por acaso, quando um poema dialoga com outro ou quando é citado em uma entrevista ou em um artigo, por exemplo. Um dos maiores ícones vivos da nossa literatura, o poeta e crítico de arte maranhense Ferreira Gullar fez há mais de 30 anos uma coletânea dos poemas que o marcaram em sua trajetória.
O volume O prazer do poema – Uma antologia pessoa (Edições de Janeiro, 376 pág.) só foi publicado agora, em capa dura. A demora, Gullar explica, foi por conta da batalha para conseguir autorização para usar os versos de vários autores. “Entreguei o livro ainda para a José Olympio. Eles tentaram publicar o livro, mas não conseguiram por falta de permissão ou porque herdeiros cobravam uma fortuna para usar um só poema. Os herdeiros de Jorge Luis Borges, por exemplo, se negavam a autorizar”, diz o escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras, por telefone.
Aos 84 anos, o autor de O poema sujo viu a obra finalmente vir a público. A Edições de Janeiro precisou de um ano para conseguir todas as licenças, mas o trabalho saiu com capricho, com direito a belas traduções do próprio Gullar. A seleção conta com mais de 80 poetas, com destaque a Rimbaud, Drummond, João Cabral, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Camões, César Vallejo, Borges, Mário de Andrade, Rainer Maria Rilke e T. S. Elliot, entre outros. O próprio Gullar poderia estar na lista, não fosse ele o organizador.
No prefácio, o escritor aponta que a coletânea surgiu do reencontro com uma certeza: a de que a poesia é capaz de deslumbrar as pessoas. Depois da recepção fervorosa a uma leitura sua de um poema de Fernando Pessoa em 1991, ele retomou a sua coletânea pessoal de versos, pensando sempre em privilegiar aqueles que fossem mais fascinantes.
“Esse deslumbramento é algo que não sei definir: só a leitura dos poemas pode fazer o leitor entender. São os textos que ao longo da minha vida me comoveram, e que alguém mais jovem talvez não conheça. Não quis fazer também nem uma seleção e nem traduções muito eruditas. A ideia é ser acessível”, aponta. Se a sua poesia é criada a partir do espanto com o mundo, ler um poema é presenciar isso de novo. “Um verso busca transmitir um espanto, um deslumbre – sua beleza vem da capacidade de conseguir isso”, atesta.
O livro tem um olhar que se limita, em geral, até a poesia moderna, com um foco principal em algumas tradições: a língua francesa, a inglesa, a espanhola e, claro, a portuguesa – o que mostra também de onde bebe o escritor. Só um dos nomes que aparecem é um poeta vivo, o peruano Carlos Gérman Belli, de 87 anos – irônico porque o próprio Gullar, quando pequeno, só conhecia os versos que vinham nas gramáticas, com Camões, Bocage, Castro Alves, e acredita que poesia era uma profissão de mortos.
As escolhas, no entanto, não significam que o poeta deixou de ler autores contemporâneos. “Recebo livros de todo mundo e os vejo com prazer. Existem autores muito bons – prefiro não citar nomes, para não excluir ninguém –, mas que não entraram porque é uma seleção que começou há mais de 30 anos, foi uma experiência que eu preservei tal como aconteceu no momento”, comenta.
O poeta, vencedor de prêmios internacionais como o Camões e celebrado com um dos maiores nomes vivos da literatura, diz que não tem mais grandes ambições na carreira – na verdade, nunca as teve. “Nunca pensei que nada disso ia acontecer. Nunca imaginei uma carreira literária, ou que seria um autor famoso. O sentido da minha vida era fazer as coisas, me comunicar com os outros. Fui reconhecido por isso, mas não era o objetivo”, explica.
O único livro que Gullar prepara agora é uma coletânea de textos – “mais poéticos do que críticos” – sobre seus artistas plásticos preferidos, ainda sem data definida de lançamento. “É uma espécie de coletânea afetiva também”, brinca o poeta. Bem, pelo que se pode ver pelo lado afetivo dos poemas de Gullar, pode-se tratar de um mergulho deslumbrante.
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