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Esse blog tem como objetivo difundir a Música Popular Brasileira em geral, seja ela qual for: a música do Sul, a musica do Cariri, a Pajeuzeira ou mesmo outros ritmos de regiões diferenciadas. Nasci no Sertão do Pajeú, lugar onde a poesia jorra com muita facilidade e que os Poetas do Repente cospem versos com uma precisão incrível. Sempre tive esta curiosidade de fazer postagens e construir um blog. Aliás, criar um blog é simples e rápido, mas, o difícil mesmo é mantê-lo vivo e pulsante. Uma tarefa difícil e tem que ser feita com muita dedicação e precisão, sei que às vezes agradamos a uns e desagradamos a outros; também pudera, não somos perfeitos e isso acontece em todas as áreas e campos de trabalho. E para que o blog aconteça, tenho que desafiar o meu tempo e fazer propagar até aqueles que acessam e fazem aquisições de temas no gênero da música, da poesia e outros segmentos da cultura brasileira. Não tenho a experiência de um Blogueiro profissional, mas, como se diz: “Experiência só se conquista com tempo, perseverança e dedicação”. É isso aí, espero que curtam esse espaço que faço com exclusividade para vocês.


Obs.: Do lado direito do seu monitor adicionei uma rádio (Cantigas e Cantos) com a finalidade de que você leia e ao mesmo tempo ouça uma seleção musical exclusivamente feita por mim. Também inserí fotos Antigas da Capital da Poesia (S. José do Egito), fotos retiradas do Baú do Jornalista Marcos Cirano.


Texto: Gilberto Lopes

Criador do Blog.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Música: A curva da loucura

TropicaliaCaixa de CDs recupera os clássicos tardios da Tropicáliaeretrataa domesticação de Jorge Mautner


A cronologia mais aceita localiza a Tropicália entre os anos de 1967 e 1968. O acontecimento (na falta de palavra melhor que o defina) é ordenado em torno do disco-manifesto coletivo que reuniu Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, os Mutantes; e de ações simultâneas empreendidas em outras frentes artísticas, como o teatro (com Zé Celso e o Oficina), as artes visuais (Helio Oiticica), o cinema (Glauber Rocha) e a poesia (Torquato Neto). Depois, quando a Ditadura Militar endureceu ainda mais e forçou o exílio de Caetano e Gil, em Londres, o grupo se desfez e as ações tornaram-se menos harmoniosas entre si.

Jorge Mautner nunca viu o tempo como uma linha reta. Em sua voracidade canibal, até o tempo é feito de refeição, misturado como um prato de arroz e feijão. Passado e presente e futuro: todos na mesma tigela. O Tropicalismo, para ele, não acabou em 1968, tanto que o espírito do movimento animou e anima seus discos - e esses só começaram a ser editados a partir de 1972. A caixa "Três Tons" reúne os primeiros álbuns de Mautner - "Para iluminar a cidade" (1972), "Jorge Mautner" (1974) e "Mil e uma noites de Bagdá" (1976). O relógio, para eles, gira da mesma maneira que para seu autor. Há tanto o aroma hippie-brazuca dos anos 60 como um sabor de contemporaneidade que colocariam fácil, pelo menos o segundo deles, numa lista de melhores de 2014.
Está ali, vivo, rico, barroco e rebelde, o espírito da Tropicália. Os ingredientes da receita lançada no clássico "Tropicália ou Panis et circensis" estão todos lá: a brasilidade mestiça das tradições pulares (nas referênczias poéticas e sonoras às religiões de matriz africana); a apropriação crítica dos ícones da cultura pop e industrial; as conexões com a alta poesia (no caso, modernista); o humor e, com ele, a crítica social. Mas Mautner imprimia suas marcas a este projeto estético coletivo: o canto que margeia a desafinação, evocando a poesia oral; o violino elétrico que se mete entre o trio básico do pop (baixo, bateria e guitarra) e reproduz, nos arranjos, o mesmo estranhamento que temos ao ouvir a sua voz.
Enredo
A caixa conta uma história - a da domesticação do poeta maldito - e, de quebra, recupera episódios esquecidos da indústria fonográfica nacional. Domesticação porque é esse o processo que se dá, progressivamente, entre o álbum de estreia de Mautner, "Para iluminar a cidade", e o terceiro, "Mil e uma noites de Bagdá".
O primeiro foi gravado ao vivo, no Teatro Opinião, nos dias 27 e 30 de abril de 1972. Com uma forcinha de Gil, o poeta foi contratado pela PolyGram. A gravadora tinha um plano ousado e queria usar Mautner como uma das cobaias: lançaria o selo Pirata, com gravações ao vivo (e, portanto, mais baratas de serem feitas). O valor dos discos viria estampado na capa e seria, em média, a metade do que era cobrado por um LP comum.
O disco foi gravado de maneira tosca, rápida e sem muito planejamento. Caetano assinou um texto na contracapa, para atestar a importância do estreante. E a sorte sorriu para Mautner que, nesse tempo corrido, acabou firmando parceria com Nelson Jacobina. O guitarrista fez os arranjos do LP e iniciou uma parceria com o poeta que duraria até a morte do mesmo, há dois anos.
A estratégia comercial não deu certo e "Para iluminar a cidade" passou em branco, apesar de não lhe faltarem boas canções, como "Olhar bestial" (que evocava Maysa) e "From faraway" (parceria com Caetano, escrita na temporada europeia).
"Jorge Mautner" tentou reparar o equívoco anterior. A gravadora colocou o artista em estúdio e escalou Gil - que já gravava com Mautner - para produzir o álbum. O parceiro Jacobina foi junto e o piano foi confiado a um jovem Roberto Carvalho (futuro parceiro amoroso e musical de Rita Lee, ainda sem o "de" no sobrenome). O resultado é um disco robusto, que encanta da primeira à última faixa.
Nele, aparecem clássicos como "Guzzy muzzy", uma maravilha pop, atualíssima em sua proposta, com refrão surreal e grudento. Outro destaque é "Cinco bombas atômicas", na qual se percebe a mão de Gil e sua então obsessão por Jimi Hendrix. Há, também, "Maracatu atômico", composição mais famosa da dupla Mautner/Jacobina. Chico Science & Nação Zumbi se apropriaram da canção, de forma que a versão original soa estranha, ainda que não inferior.
Mesmo lapidada, a música de Jorge Mautner ainda não era de fácil digestão. A crítica e os programadores gostavam, mas o disco não tocava nas rádios. "Mil e uma noites de Bagdá" foi a tentativa de criar um diamante pop, com "correção" do vocal errante, marca de Mautner como cantor. Não fosse a poesia inconfundível, por vezes não se reconheceria o autor no disco. Não superou seu antecessor, mas tampouco era carente de boas canções, como provam "Rainha do Egito", "Ai, ai, ai" e "Aeroplanos".
Dellano Rios

Editor

Livro
UNIVERSAL

2014, 3 CDs
R$ 59,90

Diário do Nordeste

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