Multi-instrumentista,
reconhecido como um dos maiores guitarristas do mundo, Armando Macedo – o
Armandinho – concedeu entrevista exclusiva ao Bahia Notícias e falou sobre
temas polêmicos, como a ampliação dos espaços para os músicos no carnaval, a
manipulação da indústria do entretenimento, o jabá nas rádios e o comportamento
do público. Filho do pai da guitarra baiana e do trio elétrico, Osmar Macedo, o
soteropolitano não vê com bons olhos a "invasão" de outros estilos –
como o sertanejo – na folia momesca de Salvador. "Isso aí acaba com a
originalidade da festa, acaba com a cultura musical baiana, porque vai deixando
de escanteio os artistas do carnaval. Isso é horrível! Tem que se pôr
determinados limites nas coisas", opinou. Se por um lado ele se mostrou
favorável à tese do secretário municipal de Desenvolvimento, Turismo e Cultura,
Guilherme Bellintani, de que a democratização da festa não passa pelos
tradicionais caminhões sonoros, por outro cobrou a necessidade de se repensar o
evento. "Hoje não se faz a música para o carnaval, mas para o ano ou para
a passagem dos trios. A Bahia perdeu muito as alegorias do carnaval, o público
virou um expectador de shows na rua. As pessoas se fantasiavam antigamente, e
hoje basta pôr uma bermuda, tênis e ir para rua, encostar em um isopor e ficar
parado. Cada um faz seu camarote em toda a avenida", criticou. Longe dos
conglomerados empresariais que, segundo ele, têm na "manipulação dos
espaços nas rádios" um "esquema dominante", Armandinho comentou
a supervalorização de "estrelas da moda" em detrimento aos artistas,
mas negou ter mágoa do comportamento dos foliões. "Ressentimento de ver
essas situações, não. Até porque a gente sabe que nem tudo que faz sucesso é
bom. Agora se está na televisão, o povo corre atrás. [...] Eu sempre fui
multi-instrumentista e, desde cedo, eu vi que tinha um público sério que parava
para ouvir você tocar. Me incomoda muito o público diferente desse, que só
grita durante o show, e não está nem aí para o que se toca", disparou. Aos
60 anos, sem apoio midiático e sem emplacar um grande sucesso desde "Chame
Gente", de 1985, o compositor aposta que a marchinha "Ave Maria da
Praça" pode emplacar como hit do verão de 2014.
Bahia Notícias – Você
estreia, nesta quarta-feira (5), seus ensaios de verão, no Clube Fantoches.
Quantas edições o projeto terá?
Armandinho Macedo – Na
verdade, é uma comemoração dos meus 50 carnavais, são 50 anos de carreira.
Vamos fazer esses três ensaios (nos dias 5, 12 e 19 de fevereiro) com diversos
convidados.
BN – E como foi a escolha
pelo local? O Clube Fantoches é sempre lembrado por sua relevância nas festas
de clube e nos carnavais antigos...
AM – De um tempo para cá,
talvez de dois anos para cá, o Fantoches reativou essa coisa de shows – apesar
de que ainda não reformaram aqui lá. É um espaço central, grande, oferece um
salão, camarotes, tem toda uma disponibilidade ideal para se fazer esse tipo de
coisa. Carece, realmente, de uma reforma. Parece que reativaram da forma que
estava, mas é um espaço bacana pela história também. Você vê, pelos quadros que
eles têm lá, as raízes do carnaval.
BN – Armandinho, você é
filho de Osmar Macedo, grande inventor do trio elétrico. Recentemente, o
secretário municipal de Cultura, Guilherme Bellintani, veio aqui e disse que a
democratização do carnaval e uma forma de inserir mais artistas na festa não
necessariamente passam pelo trio elétrico, que foi a invenção da família
Macedo. Ele defende que haja outras formas de inserção, via fanfarras, blocos
de rua, shows em praças... Queríamos que você comentasse essa declaração.
AM – Tinha uma coisa que
acontecia anos atrás, que eram os palcos de bairros. Essa era uma opção bacana,
até para distribuir a festa. A gente ia para Macaúbas, para o Uruguai, eu tenho
três troféus que eu ganhei nos anos de 1964 e 65 nesses bairros. Tinha gente que
não ia nem no centro da cidade, ficava ali; os festejos rolavam nos palanques e
os trios pequenos passavam por lá também. Antes mesmo de criarem oficialmente o
circuito Barra-Ondina, a gente já descia com os trios pela Ladeira da Barra
quando terminava a festa na Avenida. Hoje em dia, além de ter aumentado o
número de trios elétricos, o tamanho do trio inviabilizou isso. A gente tem
estruturas que só podem ser montadas na saída do percurso.
BN – Então você concorda com
essa afirmação do secretário?
AM – Sim, eu acho,
inclusive, que os camarotes são uma porta de deságue para muitos artistas, já
que essas estruturas promovem shows particulares. Concordo que algo do tipo
possa ser feito nos bairros populares como Cajazeiras, Itapagipe, Rio
Vermelho... Existe uma coisa hoje em dia no Carnaval que é o estrelato.
Antigamente, o povo ia correndo atrás do trio, se divertindo, sem nem querer
saber quem estava em cima do palco. Se a intenção é promover os artistas, então
tem de ser feito algo desse tipo, para pulverizar essas atrações e prender as
pessoas. Senão elas vão mesmo atrás de Ivete e não vão dão crédito a um artista
desconhecido.
BN – E que opções seriam
essas para prender a pessoas?
AM – Temos muitos artistas baianos que atuam
bastante em palco. Luiz Caldas é um, Gerônimo, Magary Lord... Se pegar aí tem
uma galera...Assim como eu não concordo que, durante o carnaval, no
espaço que é do empresário ele contrate dupla sertaneja, sucessos que nada têm
a ver com o Carnaval. Aí ficam de fora Luiz Caldas, Gerônimo, Moraes Moreira,
Pepeu Gomes

BN – Então você é contra a
invasão desses outros gêneros musicais, como o sertanejo, o eletrônico?
AM – Ah, com certeza, isso
aí acaba com a originalidade da festa, acaba com a cultura musical baiana,
porque vai deixando de escanteio os artistas do carnaval. Isso é horrível! Tem
que se pôr determinados limites nas coisas. Acho que convidados têm de ser
convidados de Margareth, de Carlinhos Brown, de Dodô e Osmar, de Daniela e que
subam no palco ou no trio e cantem o que quiser, mas quem comanda ali é uma entidade
baiana do carnaval, é daqui.
BN – E o pagode baiano que
não participava até os anos 90 e depois entrou nos circuitos e subiu no trio
também?
AM – Isso aí eu acho até
mais natural. Márcio Vitor é do trio elétrico, Harmonia do Samba... No começo,
eu ficava meio ressabiado porque era samba. Samba, rapaz, na época dos trios de
guitarra baiana, não pegava na rua. O povo só queria marcha e frevo, a lógica
binária. No samba tinha que se parar para rebolar. Eu me lembro que quando
estourou aquela música "Olha a flor da laranjeira/ Alô, Bahia", ela
não virou sucesso instantâneo. Hoje, esse samba é o típico samba que todo mundo
acompanha, mas na época não era. A nossa bateria também era aquela charanga de
frevo, não encarnava no negócio do samba, não pegava, o pessoal pedia para
trocar a música. Quando eu aprendi a tocar esse samba, meu pai me dizia:
"Meu filho, samba não dá, não pega, o povo não dança, eles querem o frevo,
o binário, para pular. É música para pular brasileira!".
BN – Desde 1985, ano do
"Chame Gente", que a banda Armandinho, Dodô & Osmar não consegue
emplacar um grande sucesso de rua. A que você atribui isso? É pela inserção
desses outros ritmos na festa, pela lógica da indústria do entretenimento?
AM – A indústria começou a
manipular a comunicação, a ter uma coisa contratada. Quando a gente começou a
gravar os discos de trio, em 1975, não tinha um produto do carnaval e aqui na
Bahia era a história dos trios elétricos. Então, quando os discos começaram a
sair, isso foi um prato feito para as rádios, que tocavam o disco inteiro. As
rádios não só punham as músicas cantadas não, eram todas, inclusive, as
instrumentais. Nos anos 80, a voz começou a tomar conta do negócio, vieram os
blocos, que começam a armar esquemas com o pessoal de rádio, e aí passaram a
não tocar nossos discos. Eu me lembro que quando saiu a música "Chame
Gente", a gente já sofria com essa manipulação dos espaços nas rádios. Foi
aí que a gente viu surgir e crescer esse esquema, que hoje é dominante.
"Chame Gente" ficou pela sua força mesmo, pelo seu efeito contagiante
nas pessoas, mas não é uma música que fica tocando nas rádios. Ela é algo como
"Colombina" nos tempos passados...
BN – As chamadas
"músicas do carnaval" são escolhidas exclusivamente por essa inserção
nas rádios e na TV ou realmente há algo nelas que motiva a inserção?
AM – A maioria das músicas
de hoje é descartável, não tem o menor conteúdo para ficar na memória, então,
com elas são fáceis... É a coisa do oba oba, da sacanagem para entreter. Na
verdade, elas vão para a boca do povo porque são fáceis e porque são tocadas.
Fizemos um disco no ano 2000 e agora, em 2010, a gente preparou uma música e
nada repercutiu. Isso desestimula você a gravar no carnaval. Em 2010, a gente
foi apresentar essa música na rádio, fizemos uma entrevista de duas horas e, em
nenhum momento, tocaram a música de trabalho inteira, porque todos os espaços
musicais eram vendidos. A gente está com uma música agora que é muito boa,
chamada "Ave Maria na Praça": "Ave Maria, cheia de graça, que
alegria é ser do chão da praça". Um negócio bacana, dentro do nosso
espírito mesmo. A gente vai tentar emplacar, mesmo com esse esquema de jabá. O
tema do Carnaval de Salvador esse ano é "Salvador é diferente" e até
colocamos uns versos fazendo referência a isso. A gente acredita, mas não tem
mais aquela coisa dos tempos antigos. Hoje também não se faz a música para o
carnaval, mas para o ano ou para a passagem dos trios. A Bahia perdeu muito as
alegorias do carnaval, o público virou um expectador de shows na rua. As
pessoas se fantasiavam antigamente e hoje basta pôr uma bermuda, tênis e ir
para rua, encostar em um isopor e ficar parado. Cada um faz seu camarote em
toda a avenida.
BN – Certa vez, há um tempo
já, encontrei você em um supermercado ali da Barra fazendo compras
tranquilamente. No mesmo dia, ao sair do mercado, no Shopping Barra havia uma
parafernália de segurança e gente por conta da presença de Carla Perez. Um
grande artista, um dos maiores guitarristas do mundo, segundo a revista Rolling
Stone, fazendo compras tranquilamente a metros de distância de uma celebridade
que mobiliza todo um aparato para ir ao shopping. Te dá algum tipo de
ressentimento dessa fama exacerbada de alguns artistas que vivem do carnaval
iniciado por você?
AM – Ressentimento de ver
essas situações, não. Até porque a gente sabe que nem tudo que faz sucesso é
bom. Agora se está na televisão, o povo corre atrás. Engraçado você lembrar
isso, porque outro dia eu estava em uma farmácia e a mulher saiu dizendo que
queria tirar uma foto comigo porque eu estava no Rede Bahia Revista. "Você
estava na TV, não foi? Eu te vi, faça uma foto comigo!". Imagine então
quem está na TV todos os dias? Eu sempre fui multi-instrumentista e, desde
cedo, eu vi que tinha um público sério que parava para ouvir você tocar. Me
incomoda muito o público diferente desse, que só grita durante o show, e não
está nem aí para o que se toca. O que a gente sente falta também é o
reconhecimento da imprensa: você toca quatro dias de carnaval e quando vai ver
a retrospectiva feita pela mídia, nem cita. Mas aí você entende que é muita
coisa acontecendo nesse período, muita coisa que interessa à mídia, isso é
natural.
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BN – Participar de bloco
fechado não seria uma opção interessante, no passado, para conquistar esse
espaço frente à mídia e ao público?
AM – A gente tentou ter um
bloco, em uma ocasião, chamado "Adrenalina", mas o público da gente
não tinha esse perfil de bloco. Fizemos dois anos, foi crescendo. No primeiro
ano tivemos 700 compradores, no segundo foi mais de 1,3 mil (além dos abadás
promocionais). No segundo ano, o dono da vaga começou a chiar, dizer que não
estava lucrando. E eu contra-argumentava dizendo que tínhamos que educar o
público, que o retorno financeiro só se teria depois de, no mínimo, cinco anos.
Tem muita gente que pula atrás do nosso trio e que pede isso, mas a gente tem
mostrado que a seleção natural daquela pipoca que sai com a gente é de quem
gosta da história, da música, da guitarra, tem toda uma ligação com a coisa. Um
bloco associado não segura a estrutura, tem de ter os patrocinadores e nós
estamos bem arranjados com os nossos. Além disso, não começamos desse modo nos
anos 80. Não é uma coisa de sucesso, de mídia, mas é uma coisa que arrasta
muita gente, de crianças a pessoas mais velhas.
BN – Com essa formação
musical instrumental, como vai esse tipo de música hoje na Bahia?
AM – Eu não posso fazer uma
avaliação geral, mas para mim existe um respeito do público pelo que faço. Eu
tenho um público na Bahia, mas eu não vivo só daqui. Eu viajo muito, para fora
do país, inclusive. Eu acredito que se eu dependesse, como músico, só desse
mercado aqui, eu não viveria de música. Salvador não é uma cidade que tenha
bons espaços para shows; artistas famosos têm de fazer apresentações em
barezinhos. Por isso que o Fantoches, do jeito que está, é o lugar que muitos
artistas acharam para fazer seus ensaios de verão. A gente tem que cobrir tanta
parede estragada, mas de noite, com os enfeites, dá para disfarçar.
BN – Como é o formato do
show?
AM – É uma banda tanto para
mim, quanto para os convidados. Nós fazemos as apresentações juntos mesmo, tudo
ensaiado. A ideia da comemoração não foi fazer algo necessariamente para o
carnaval ou para o que a gente vai apresentar no trio elétrico. Chamamos Geraldo
Azevedo, Lenine, Fafá de Belém e Elba Ramalho, que é a mais ligada a essa coisa
do Carnaval, porque está sempre aqui com trios elétricos. A ideia foi comemorar
meus 50 anos de carreira com essa coisa mais MPB mesmo. A minha ideia é
interagir com outros ritmos, afinal a guitarra baiana é um instrumento que pode
estar presente em vários estilos. Um instrumento moderno, um instrumento novo,
que está ressurgindo agora.
BN – Queria que você
comentasse um pouco esse ressurgimento...
AM – A guitarra baiana é um
híbrido de bandolim com cavaquinho, então já é um instrumento que mistura os
dois. Eu coloquei uma quinta corda, o que já diferencia dos dois instrumentos
originais. Assim como o trio elétrico, a guitarra baiana absorve tudo que é
novo, tudo que é musical.
Fonte: Bahia Noticias / Pajeu da
Gente
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