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Esse blog tem como objetivo difundir a Música Popular Brasileira em geral, seja ela qual for: a música do Sul, a musica do Cariri, a Pajeuzeira ou mesmo outros ritmos de regiões diferenciadas. Nasci no Sertão do Pajeú, lugar onde a poesia jorra com muita facilidade e que os Poetas do Repente cospem versos com uma precisão incrível. Sempre tive esta curiosidade de fazer postagens e construir um blog. Aliás, criar um blog é simples e rápido, mas, o difícil mesmo é mantê-lo vivo e pulsante. Uma tarefa difícil e tem que ser feita com muita dedicação e precisão, sei que às vezes agradamos a uns e desagradamos a outros; também pudera, não somos perfeitos e isso acontece em todas as áreas e campos de trabalho. E para que o blog aconteça, tenho que desafiar o meu tempo e fazer propagar até aqueles que acessam e fazem aquisições de temas no gênero da música, da poesia e outros segmentos da cultura brasileira. Não tenho a experiência de um Blogueiro profissional, mas, como se diz: “Experiência só se conquista com tempo, perseverança e dedicação”. É isso aí, espero que curtam esse espaço que faço com exclusividade para vocês.


Obs.: Do lado direito do seu monitor adicionei uma rádio (Cantigas e Cantos) com a finalidade de que você leia e ao mesmo tempo ouça uma seleção musical exclusivamente feita por mim. Também inserí fotos Antigas da Capital da Poesia (S. José do Egito), fotos retiradas do Baú do Jornalista Marcos Cirano.


Texto: Gilberto Lopes

Criador do Blog.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Crônicas » Poeta Fabrício Carpinejar lança suas memórias da infância em dois volumes

O performático Carpinejar brilha no texto e no contato direto com o público, com seu senso de humor singular (Camila Rodrigues/Divulgação)
O performático Carpinejar brilha no texto e no contato direto com o público, com seu senso de humor singular

‘‘Viver exigia legendar o mundo”, escreve o mineiro Bartolomeu Campos de Queirós em sua obra-prima, o romance Vermelho amargo, narrado por um garoto às voltas com os mistérios da infância. “Nascer é muito comprido”, decreta Murilo Mendes no poema “Reflexão nº 1”. Agora, Fabrício Carpinejar, de 41 anos, reinventa seus dias de menino para nos ajudar a saltar o abismo do tempo.

Em dois pequenos livros de crônicas – Não atravesso a rua sozinho e Te pego na saída –, o gaúcho revisita sua meninice no interior do Rio Grande do Sul. Tempos saudáveis, aqueles: nada de grades e portões eletrônicos, bastava bater palmas para alguém abrir a porta de casa. Diversão não era sinônimo de shopping center e muito menos de rolezinho. A rua era o mundo – de todos.

Carpinejar diz que sua biografia é rascunho para um romance. Será? De crônica em crônica (são 50, em 197 páginas), temos a impressão de já ler o romance protagonizado pelo gauchinho alto-astral que se sentia “um menino iraniano no Brasil” – de tão diferente dos outros. Feinho, o pequeno herói acreditava ter sido trocado no hospital. Não adiantou a mãe exibir a foto do avô, um o focinho do outro. “Coitado, ele também foi trocado”, conclui.

Também pudera! Depois de operar as adenoides, Fabrício teve de chupar bico até os 10 anos. Era assim o tratamento da fonoaudióloga para expandir o céu da boca do pequeno paciente, obrigado a conviver com o desvio de septo e muitos exames. Brindado com implacáveis apelidos pela gurizada, nosso protagonista fez do bom humor um cúmplice – sem dramas, ao que parece. “Não me sentia humilhado. Me antecipava às piadas sobre minha feiura e elas ficavam velhas na boca dos outros”, confessa.

O personagem de Não atravesso a rua sozinho lembra um pequeno mineiro: o alto-astral Odnanref de O menino no espelho (1982), romance de Fernando Sabino. O gaúcho e o belo-horizontino souberam legendar o mundo, como disse Bartolomeu Queirós. Crianças atentas ao imenso universo à sua volta, vasculharam infinitezas que cabem dentro do quintal, de uma sala de aula ou do lar, doce lar. “Eu apenas me interessava por fatos que ninguém conseguia explicar. A desistência da explicação é o início do poema”, resume Carpinejar. Simples assim.

Se Fernando – digo, Odnanref – voou pelos céus de Belo Horizonte, salvou uma galinha e fez dela sua fiel “Sancho Pança” –, nosso pequeno “iraniano” também tem suas histórias com poedeiras. Pois não é que mandaram a penosa de estimação do avô para a mesa no almoço de Domingo de Ramos? “Marlene, Marlene, perdoa, eles não sabem o que fazem!”, bradou o nonno. Ecologista, a dupla. Quando o patriarca decidiu fotografar seus bichos queridos – vaca, cavalo e a outra penosa, a Lurdes –, coube ao neto segurar os modelos, além de maquiar Lurdes. Na parede da sala, a Arca de Noé: em 22 pequenos três por quatro. Com um nonno assim, para que amigos imaginários?

Picolé No mundo fabriciano, eletrodoméstico é quase ser humano. Aberta, a geladeira funcionava como luminária e ar-condicionado para o voraz leitorzinho noturno. Certa vez, o menino esqueceu livros lá dentro. Eram de Gonçalves Dias – as obras completas, coitadas, encolheram, vítima de hipotermia. Veterana nas lides domésticas, a máquina de lavar da mãe, comprada em 1974, não parece: é quase uma tia solteirona: “Com seu uniforme de enfermeira, os cabelos grisalhos, a cintura de bisavó e o perfume azul de sabão em pó”. Homem feito, Carpinejar confessa: leva a trouxa de roupa suja para a casa da mãe quando bate a neura de abandonar a literatura. E fica ali, observando a velha senhora tossir, resmungar, roncar e suportar estoicamente as empregadas, quase assassinas, girarem seu botão no sentido anti-horário.

Ser criança nunca foi fácil – que o digam Bartolomeu Queirós, Murilo Mendes, Fernando Sabino, Fabrício Carpinejar e os meninos de hoje, às voltas com o bulliyng. Há algo comum entre eles: todo mundo quer ser invisível quando pequeno, arranja briga na escola e teme atravessar a rua sozinho.

Como tantas crianças no século 21 (entupidas de ritalina, a droga das salas de aula), Fabrício Carpinejar não se dava bem com as letras. O ditado o aterrorizava. Ele ouviu a professora avisar: “O menino não tem conserto. Não vai se alfabetizar”. A mãe reagiu, “braba de esperança”: arrumou um quebra-cabeças com sílabas, subiu ao telhado – refúgio de seu menino – e, pacientemente, inventou palavras com ele. Foi assim que o futuro escritor se apaixonou pelo ofício. E ele ainda garante: “Escrevia mais no tempo em que era analfabeto...”.

COLEÇÃO VIDA EM PEDAÇOS
De Fabrício Carpinejar
Ilustrações: Eloar Guazzelli

. NÃO ATRAVESSO A RUA SOZINHO
Editora Edelbra, 
112 páginas, R$ 25

. TE PEGO NA SAÍDA
Editora Edelbra, 
96 páginas, R$ 25

Diário de Pernambuco

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