Frevo de bloco com fado, e uma homenagem a Carlos Fernando
Um
dos maiores intérpretes de frevo, criador de estilo próprio e autor de
clássicos do gênero, Alceu Valença só agora, com Amigo da arte (Deckdisc),
grava um disco inteiro com repertório carnavalesco. Um álbum que levou mais de
dez anos para ser lançado. Foi gravado entre 2001 e 2002, e retrabalhado
(bases, vozes), no ano passado, por Alceu e o produtor e guitarrista Paulo
Rafael. Ele preferiu adiantar outros projetos na frente: os discos Janeiro
a janeiro e Ciranda mourisca, depois o DVD Marco Zero e o filme A luneta do
tempo (inédito). Amigo da arte chegou terça às lojas virtuais e se tornou, de
cara, o mais vendidos na iTunes. Amigo da ate é dedicado a Carlos Fernando. De
Lisboa, onde passava férias, Alceu concedeu esta entrevista por e-mail.
JORNAL DO COMMERCIO -Antes de falar, do disco,
falemos dos ritmos. Como explicar esta variedade tão grande de ritmos no
Carnaval pernambucano? Como chegamos a frevo (com suas diversas nuances),
maracatu, caboclinho, ciranda?
Alceu Valença – Pernambuco é o estado com a maior diversidade de
gêneros de todo o Brasil. A ideia deste disco é ilustrar em parte esta
diversidade, com enfoque nos gêneros do carnaval, ou seja, da zona da mata e do
litoral. Fiquei tomado por estes estilos quando cheguei em Recife, ainda
menino, e vi desfilar os primeiros blocos de frevo à minha frente. Eu morava na
rua dos Palmares, que costumo chamar de “rua carnavalódroma”, porque além de
ali passarem os principais blocos do carnaval, éramos vizinhos do maestro
Nelson Ferreira. Lembro dele tomando uísque com papai
na minha casa, num dia de carnaval.
Fui
criado com aboios, emboladas, cocos, forrós, xotes e baiões e, quando nos
mudamos para o Recife, se descortinaram para mim o frevo, o caboclinho, o
maracatu, as cirandas. O disco “Amigo da Arte” capta este imaginário a partir
da minha perspectiva pessoal. A variedade de gêneros de Pernambuco se explica
pela própria configuração humana do estado. As regiões do sertão e do agreste
viveram a civilização do couro, possuem forte influência árabe e mourisca em
suas expressões culturais. J
á
os gêneros do carnaval vêm da zona da mata, que formou sua geografia humana
através da cultura da cana-de-açúcar, com uma presença negra maciça, que veio a
influenciar os ritmos do maracatu e das cirandas e a dança do frevo-de-rua, via
capoeira. Os caboclinhos possuem raízes indígenas enquanto o frevo-canção
ressalta a nostalgia ibérica, com influência do fado e da canção portuguesa,
aspecto que procurei ressaltar ao convidar a cantora Carminho para cantar
comigo o Frevo Número 1”, de Antonio Maria.
JC
- Depois de Claudionor Germano, você é o mais bem sucedido cantor de frevo da
historia do gênero. Você compos algum frevo, quando começou a fazer música, e a
participar de festivais?
Alceu Valença –
O primeiro frevo que compus foi “O Homem da Meia-Noite”, em parceria com Carlos
Fernando, para o projeto “Asas da América”, no comecinho dos anos 80 (n- Alceu
gravou o Homem da Meia-noite, em 1975, na Som Livre). Eu tinha alguma reserva
em cantar frevo, mas Carlinhos me incentivava muito e eu acabei compondo uma
série de frevos junto com ele. No novo disco, eu recrio, por exemplo, “Sou eu
Teu Amor”, um dos meus primeiros frevos, lançado por Gilberto Gil e Jackson do
Pandeiro. Jackson, por sinal, me dizia: “para cantar frevo, tem que ter
queixada”, e eu sempre procurei me lembrar deste conselho.
JC
- Então depois de gravar o Homem da meia-noite e Pitomba, pitombeira ( n- frevo
de Carlos Fernando, ladoB do compacto com o Homem da Meia-Noite) é que
despertou sua veia de frevador?
Alceu Valença -
E outros ainda, como “Menina Pernambucana” e a primeira vez que gravei “Voltei
Recife”, para o Asas da América. Em 1985, estourei o primeiro frevo num disco
de carreira, “Bom Demais”, de J. Michiles, do disco “Estação da Luz”. Aí vieram
vários outros e o frevo se tornou uma das minhas vertentes mais populares.
JC
- E aí entra Carlos Fernando. Qual a principal inovação introduzida por ele no
frevo? Lembro que ele me disse que quando mostrou um frevo seu a Capiba, ouviu
o comentário: Isso é rock!
Alceu Valença –
Da mesma maneira, quando Luiz Gonzaga me viu cantando ao vivo pela primeira
vez, disse, como um elogio, que meu som era uma banda de pífanos elétrica
(risos). Carlos Fernando foi um reinventor do frevo, responsável por
popularizá-lo para gerações que estavam afastadas do gênero. Os desdobramentos
de sua iniciativa estão aí até hoje. Seu legado é eterno.
JC- Você lança um disco que mapeia, traça a
trilha sonora do carnaval pernambucano. Mas para uma geração que está por volta
dos 25 anos, o Carnaval do Recife é mais shows do que passo. Hoje temos o
folião passivo, o que não sai pra brincar, mas para ver shows, a maioria deles,
com música que pouco ou nada tem a ver com a festa. Qual tua opinião sobre este
fenomeno?
Alceu Valença –
Nunca fui um tradicionalista, mas sempre respeitei as tradições. No carnaval,
eu só canto os gêneros do carnaval pernambucano. Não canto forró nem baião.
Assim como no São João, não canto frevo, nem ciranda. É por isso que costumo
dizer que sou um espelho do meu povo. E é por isso que o povo diz que o show de
Alceu Valença é o melhor do carnaval pernambucano.
Acho
saudável que artistas de várias tendências venham para o carnaval do nosso
estado, mas também acredito que seja ainda melhor quando estes artistas
incorporam frevos, maracatus e cirandas a seus repertórios durante os shows de
carnaval.
JC - A geração manguebeat, e a que veio
depois, não em maiores afinidades com a música de carnaval, embora tenha com o
Carnaval. Este modelo de festa, de shows, teria culpa nisto?
Alceu Valença –
isso tem a ver com os meios de comunicação que cada vez executam menos frevos.
Há alguns anos, lancei via internet uma música nova, “Frevo da Lua”, que está
também no novo álbum. As rádios tocaram muito pouco e eu tive que ensinar a
música para o povo em pleno palco. As pessoas aprendem o refrão e cantam
comigo. Mas para um artista novo, que não tem a mesma visibilidade, a situação
é muito mais complicada. Agora tem esta lei que obriga as rádios a tocarem
frevo uma hora por dia. É uma boa iniciativa. Quem sabe ainda teremos uma rádio
que toque frevo 24 horas por dia?
JC
- Por volta de 1977, comentava-se que o frevo iria acabar. O disco que tocava
no rádio ainda era Capiba 25 anos de frevo, gravado em 1959. O Jornal do Brasil
fez uma matéria grande sobre a morte do frevo. Como, ou quem salvou o frevo?
Alceu Valença –
A minha geração, a de Carlos Fernando, de Elba, Geraldo, possui um compromisso
muito forte com as coisas brasileiras, com a cultura do nordeste. Sem dúvida, o
“Asas da América” deu um impulso enorme para uma segunda onda de valorização do
frevo, ocorrida a partir dos anos 80. Eu contribuí da minha maneira, mas é
claro que todos nós queremos que o frevo se renove e se eternize por muitas
gerações. “Amigo da Arte” reitera categoricamente este compromisso.
JC
- No disco você faz a junção do frevo de bloco com o fado, cantado por
Carminho. Seria o frevo de bloco o nosso fado, com sua insistência na temática
da nostalgia, do tempo que passou?
Alceu Valença –
As semelhanças são muito explícitas. Tanto o fado quanto o frevo canção possuem
melodias dolentes, quase sempre em tom menor, que falam de saudade e nostalgia.
Vi a Carminho pela primeira vez quando ela se apresentou no Prêmio da Música
Brasileira, no Rio, cantando Tom Jobim. Fiquei arrebatado e fui o primeiro a me
levantar para aplaudir de pé. E surgiu a ideia de ela participar do “Frevo
Número 1”, exatamente para explicitar as semelhanças entre o fado e o frevo de
bloco. Fiquei emocionado com o resultado.
JC
- Você em uma afinidade grande por Portugal, pela música
tradicional portuguesa. Mas tem os holandeses. Se Pernambuco tivesse se tornado
holandês, ainda assim teríamos essa exuberância de ritmos que temos?
Alceu Valença –
Os holandeses tiveram uma influência notável nas letras e na pintura. Mas os
portugueses, os africanos e os árabes são muito mais decisivos na nossa cultura
popular. Sou um defensor da influência lusitana na cultura brasileira. As
pessoas falam de rock, jazz, fusion, reggae e tantos outros ritmos, mas o fado
acaba sendo injustiçado nesta história. Há outros exemplos desta influência,
além dos frevos-canção. Por exemplo, “Sabiá”, de Luiz Gonzaga, tem muito de
fado. Mesmo o samba-canção tem, pegue “As rosas não falam”, de Cartola e verá.
Quase ninguém fala sobre isso. Me considero um dos maiores incentivadores do
intercâmbio musical entre Brasil e Portugal.
JC - E disco de inéditas? Você certamente deve ter
músicas novas guardadas. Quando elas chegam ao disco?
Alceu Valença -
Neste disco tem duas inéditas, “Frevo da Lua” e “Frevo Dengoso”, que nunca
haviam sido lançadas em disco. Em maio, lanço o DVD das Valencianas, gravado no
Palácio das Artes, em Belo Horizonte, ao lado da Orquestra Ouro Preto. E, no
segundo semestre, sai o meu filme, “A Luneta do Tempo”, com trilha sonora toda
inédita. Pretendo lançar um disco com a trilha no próximo ano.
José Teles
Jornal do Commercio
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