Com a casa cheia de jovens e conhecedores de sua obra, Ariano ficou à vontade e abriu o livro da vida para contar histórias de um sertanejo
O escritor paraíba-pernambucano Ariano Suassuna realizou uma aula-espetáculo na noite da última terça-feira (4) no Teatro Santa Isabel, no bairro de Santo Antônio, no Centro do Recife. Esta foi a segunda aula-espetáculo depois que Ariano sofreu um infarto. Na apresentação, o escritor renovado pela arte, apesar da longa carreira artística e dos problemas de saúde. O público pôde conhecer sua faceta de modelo fotográfico, pelas lentes de Alexandre Nóbrega. Com a casa cheia de jovens e conhecedores de sua obra, Ariano ficou à vontade e abriu o livro da vida para contar histórias de um sertanejo. Discurso recorrente, o dramaturgo reclamou novamente a grandeza da cultura brasileira ante as demais.
Auxiliado por um relógio de bolso, o mestre foi cadenciando sua aula com um humor de quem já viveu bastante. Trazendo à tona relatos sobre sua recente passagem pelo hospital, o paraibano provou que está se revigorando. Foram quase 2h de palestra, para uma plateia receptiva. A cada conto, aplausos e risadas sonoras.
Nas cadeiras e camarotes do secular Teatro Santa Isabel, pessoas de todas as idades, com olhar fixo na mesa no centro do palco. O senhor do Auto da Compadecida falava suas ideias, de maneira aberta, como está acostumado a fazer. "Eu prefiro o mau gosto ao gosto médio. Se for comparar Lady Gaga com Banda Calypso, viva Banda Calypso, então!", disparou Suassuna, sob as gargalhadas do público.
Houve tempo para defesa dos portugueses, trazendo o poema Calabar, do poeta Jorge de Lima. "Tenho o maior orgulho de ser descendente de português, com índios e negros", explicitou. A experiência de ouvir a poesia de Jorge musicada por Capiba possibilitou a Ariano a descoberta da cultura e sociedade brasileiras. E daí segue-se o repertório de ideias que são marca registrada do escritor.
O tema da aula-espetáculo, Arte como missão, foi reverberado diversas vezes durante a 1h40 que o dramaturgo passou no palco. Falou da música, exaltando Villa Lobos e o maestro paraense Waldemar Henrique da Costa Pereira. O Circo Alegrai-vos, projeto de Ariano possibilitado pelo Governo do Estado, veio à tona com um desejo antigo do escritor: ser palhaço. "Eu sou coordenador e o palhaço do circo. Sempre quis ser palhaço", confessou.
Com um projetor, fotografias de Alexandre Nóbrega foram ao fundo do palco, com o ensaio O Decifrador, que virou livro. A primeira fotografia trazia um modelo de 86 anos, já fragilizado pelo tempo, lendo um livro deitado no chão do aeroporto de Salvador. As imagens seguintes traziam Ariano pelas paisagens do sertão de Pernambuco e da Paraíba. "Nas imagens, é possível ver um homem comum, de hábitos simples e talento invejável”, comenta Alexandre Nóbrega.
O fim do espetáculo, anunciado pelo relógio de algibeira, Ariano agradeceu a presença e foi aplaudido de pé pela plateia, como se tivessem visto pela primeira vez as palavras do dramaturgo. Arte como missão é um projeto da Caixa Cultural. A entidade cedeu apoio ao ensaio fotográfico, a produção de um almanaque sobre o escritor e está oferecendo uma programação de cinema na sede da Caixa Cultural, no Recife Antigo, com filmes ligados
Do JC Online
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