Autor de "Tudo passar" chegou a vender 45 milhões de discos e superou preconceitos
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| "Pequeno gigante" estava afastado do show business desde 2003, quando sofreu um AVC. Foto: Marcos Alves/ Divulgação |
Seu vozeirão conquistou muitos fãs, até mesmo o colombiano Gabriel García Márquez, que chegou a declarar que escrevia ao som da voz do cantor. Com seu 1,12m, ele cantou nos quatro cantos do mundo e vendeu 45 milhões de discos. Portador de displasia espôndilo-epifisária, decorrente de mutação genética, jamais se rendeu ao bullying. Enfrentou o preconceito pelo gênero escolhido para mostrar seu talento: a canção romântica popular. Mineiro de Ubá, onde nasceu em 2 de março de 1947, Nelson d’Ávila Pinto, mais conhecido como Nelson Ned, morreu na manhã de ontem, aos 66 anos, no Hospital Regional de Cotia (SP), em decorrência de choque séptico, broncopneumonia e Acidente Vascular Cerebral. Ele foi internado na tarde de sábado já com quadro grave de pneumonia.
Em 2003, o cantor e compositor havia sofrido um AVC. Perdeu a visão de um olho e precisava se locomover em cadeira de rodas. Tinha diabetes, hipertensão e foi diagnosticado com mal de Alzheimer em fase inicial. Até o fechamento desta edição, o corpo estava sendo preparado para ser cremado na noite de ontem no Crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra, na Região Metropolitana de São Paulo.
Nelson Ned foi o primeiro latino-americano a vender 1 milhão de discos nos Estados Unidos, onde se apresentou junto com o espanhol Julio Iglesias e o norte-americano Tony Bennett. Por três vezes lotou o Carnegie Hall, a mítica casa de shows de Nova York. Também se apresentou no famoso Madison Square Garden.
Evangélico desde os anos 1990, passou a gravar temas religiosos em discos lançados nos mercados brasileiro, norte-americano e hispânico. O jornalista Paulo César Araújo, autor do livro Eu não sou cachorro não, afirmou que Nelson Ned era sagaz em relação ao mercado fonográfico. “Ele tinha visão crítica e lúcida com relação ao contexto da música. No Brasil, sempre fez muito sucesso entre as camadas mais populares, mas não dá dúvida de que seu reconhecimento e prestígio foram muito maiores no exterior”.
Do ator Paulo Gracindo o cantor ganhou o apelido que o consagraria: Pequeno Gigante da Canção. “O começo foi muito difícil, pois o Brasil estava acostumado a só ver anão fazendo show em circo ou pegando alguma ponta em programa humorístico de TV. Foi difícil provar às pessoas que sou pequeno e canto bem, assim como o Ray Charles e o Stevie Wonder são cegos e também cantam”, afirmou Nelson em sua autobiografia, O pequeno gigante da canção. Ele gravou 32 discos. Era ídolo no México, Colômbia, Argentina, Espanha, Portugal, Angola e Moçambique, entre outros países. Tudo passará teve 40 regravações diferentes em vários idiomas.
Nos anos 1960, Nelson Ned morava com a família em Belo Horizonte, saído de Ubá. Apresentou-se em programas de auditório nas rádios Guarani e Inconfidência e na TV Itacolomi. Em 1963, mudou-se para o Rio. Peregrinou por rádios, TVs e gravadoras, contou com o empenho de Chacrinha para divulgar seu trabalho até estourar com Tudo passará, em 1968.
No Brasil, fazia sucesso no programa do Chacrinha e nas rádios populares. Era tratado com desdém pela crítica brasileira, enquanto no exterior despontava como top do showbusiness. Em 1976, interrompeu a carreira por causa de um descolamento da retina. Em meio ao desespero e à dor num hospital norte-americano, tornou-se evangélico.
Em sua autobiografia, Nelson fala do sucesso, da mudança para os EUA, da fortuna e do envolvimento com mulheres, além de bebidas e drogas. Em 1988, o cantor frequentou as páginas policiais: a mulher, Cida, segundo ele, sofrera acidente com arma de fogo na residência do casal, na capital paulista. Nelson nega ter atirado nela, mas foi processado. Parou de beber e de cheirar cocaína, mas voltou aos vícios. Só se livrou dos tormentos no fim dos anos 1990. Em 2003, sofreu o AVC que interrompeu sua carreira. Perdeu a fortuna e contou com os cuidados dos irmãos Ned Helena, Nélia, Nedson, Neuma, Neyde e Nelci, que nasceram sem a alteração genética do irmão famoso. O cantor foi casado duas vezes e deixou três filhos: Monalisa, Verônica e Nelson Jr, que herdaram do pai a baixa estatura.
Ubá
Ano passado, o cantor ganhou homenagem em Ubá (MG). O Memorial Nelson Ned abriga pequeno acervo alusivo à carreira dele. “Nelson ajudou a muita gente, mas não gostava de divulgar isso. Vê-lo cantar, com toda aquela emoção, sempre foi uma alegria para os fãs. Morre o homem, mas não o artista”, destacou Rubens Pereira, cunhado do cantor. (A.F.)
Diário de Pernambuco
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