
Que os bichos da antiguidade
Falavam como falamos
E tinham civilidade
Naquele tempo até bichos
Casavam por amizade
Lia escrevia e contava
O cavalo era escrivão
O cachorro advogava
O carneiro era copeiro
E o jaboti desenhava
Onça era professora
Elefante era juiz
A raposa agricultora
Camelo era correio
A aranha tecedora
Guaxinim plantava cana
O macaco em sua tenda
Vendia queijo e banana
Aos outros a prestação
Pra receber por semana
A traça era costureira
Girafa fazia renda
Cutia era engomadeira
Peru era viajante
Cobra vendia na feira
Urubu era marchante
O jacaré era bacharel
Canguru comerciante
O peba era coletor
Camaleão despachante
O papagaio pregador
Periquito era fiscal
O sapo era caiador
A preguiça era parteira
Mestre bode era doutor
Pavão era sapateiro
Mucura vendia ovos
Tiú era cozinheiro
Tamanduá era padre
O preá era barbeiro
O mocó era dentista
Socó era pescador
A garça era modista
Morcego guarda noturno
A lagarta desenhista
Daquele tempo passado
Era como os homens hoje
Viviam tudo empregado
Não se via bandalheira
Nem se vivia enganado
De alta capacidade
Enamorou-se da raposa
Consagrou grande amizade
Prometendo-lhe mais tarde
Fazer-lhe a felicidade
Chegou em casa e contou
Pra sua mãe que sabendo
De muito gosto aceitou
A raposa tão contente
Nesse dia não jantou
É um jovem bem decente
Pertence a alta escala
É filho de boa gente
Porém queremos saber
Se o pai dele consente
Também não propôs questão
Deu consentimento ao filho
De ter da raposa a mão
A velha cabra então disse
Não acho boa união
De alta capacidade
Querer casar com uma moça
De tão baixa qualidade
Respondeu o velho sorrindo
Isto é só formalidade
Duma raça boa e pura
É uma jovem elegante
Vive da agricultura
Respondeu a cabra zangada
Mas não me agrada a figura
Que a tal não posso me unir
Me arrepia os cabelos
Só em ver ela sorrir
Porém como todos querem
É o jeito eu consentir
Que sua mãe consentia
Deu três pulos no terreiro
Tomou rapé de alegria
Correu pra casa da noiva
Pra contar o que havia
Foi dizendo agora vai
Aproveite a ocasião
Me peça logo ao meu pai
Se não levar a decisão
Tu hoje daqui não sai
Muito bem feita e mandou
Pela resposta na sala
Silencioso esperou
O velho recebeu a carta
Veio em pessoa e falou
Para que tanta vergonha
Eu me acho ao seu dispor
E precisando disponha
Dona raposa de lado
Se conservava risonha
Falou em cima da bucha
É muito certo o ditado
Filho de pobre não luxa
O pobre de vez se atrapalha
E o rico desembucha
Como seu maior amigo
A sua filha estimada
Para se casar comigo
Doutor bode só ela dizer
Se quer se casar consigo
O seu pedido aqui feito
Cá de meu lado garanto
De muito gosto aceito
Chamaram então a raposa
Contaram tudo direito
Marcaram o mês e o dia
Mandaram logo avisar
O padre da freguesia
O velho tamanduá
Com toda família ia
Por cartas especiais
Desde o soldado raso
Aos mais altos generais
Afinal todos os bichos
Da classe dos animais
Mandou dizer que não ia
Porém estava ao dispor
Se quisesse a garantia
Mandava a força armada
De linha ou cavalaria
Dizendo não precisar
Pois não tinha inimigo
Que quisesse lhe atacar
Porém se fosse preciso
Telefonava pra mandar
Do casamento feliz
Primeiramente iriam
A presença do juiz
Depois foram se casar
Na igreja da matriz
Foram cachorro e elefante
Da raposa a professora
Onça pintada galante
E a filha do capitão lobo
Uma jovem muito elegante
O macaco bandolino
Periquito na rabeca
Canguru no violino
Caititu no contra baixo
E o peru no cavaquinho
O papagaio violão
O socó na clarineta
Morcego no rabecão
Mestre coelho no tambor
E o mocó no bombardão
Carneiro botava mesa
A garça junto ao pavão
Iam fazendo a limpeza
O porco de sentinela
Para servir de defesa
Começou uma discussão
Dizia o lobo que era
Superior ao leão
Saltou o cachorro dizendo
Amigo agora isto não
És melhor que o leão
Ele sendo o nosso rei
Tem o direito na mão
Temos de reconhecê-lo
Como chefe da nação
Queria porque queria
Ver terminar em desgosto
A festa daquele dia
O cachorro deitou-lhe o braço
Errou pegou na cotia
A favor do capitão
O cachorro pegou de jeito
E lhe deu um bofetão
E uma grande dentada
Deixando morto no chão
Vendo seu sogro morrer
A professora também
Foi a causa defender
Mas o boi tomou a frente
Fez a onça esmorecer
Arrenegou-se do diabo
O corneteiro entrou na luta
Poucos minutos deu cabo
Camelo quebrou espinhaço
A anta perdeu o rabo
Com o leão ninguém bole
Pode vir duzentos lobos
Dum bocado não me engole
Deu um pontapé no urso
Que ainda hoje anda mole
Quase morre de tremer
Veado a zoada vendo
Tratou logo de correr
O jacaré caiu na água
Não quis a vida perder
Com os dentes agarrou o preá
Macaco pulou num pau
E gritou guardem de lá
Façam o angu de vocês
Que eu fico olhando de cá
Já tinha se escapulido
Vendo o cachorro na luta
Não quis saber de marido
Caçote deixou a barba
Cobra deixou o vestido
Traça ficou em farrapo
Urubu quebrou a perna
Jaboti desceu em trapo
A mucura quase morre
Pisaram em cima do sapo
Agarrou-se no cavalo
O grilo ia fugindo
O gavião pode pegá-lo
A barata se desviando
Passou no bico do galo
O pescoço do socó
Deixou a preguiça sem junta
Ficou sem rabo o mocó
A girafa disse vôte
Quem quiser que brigue só
Deu um bofete no bode
Ele espirrando dizia
Com a onça ninguém pode
Dum bofete que me deu
Quase me arranca o bigode
E gritou guarda debaixo
Com meia hora de luta
Sangue corria em riacho
Pavão apanhou de pau
Mas não sujou o penacho
Guaxinim meteu a faca
O cachorro pegou o padre
E foi com ele a estaca
Disse a garça vocês briguem
Mas não me sujem a casaca
Que rumo tinha tomado
Cigarra saiu voando
Caboré estava trepado
A rã detrás duma porta
O tiu todo arranhado
Lutavam na força bruta
O cachorro com o lobo
E a onça na disputa
A anta mais o mocó
Perderam o rabo na luta
O campo estava deserto
Não tinha quem visse mais
Um deles ali por perto
Desde esse dia que os bichos
Se intrigaram por certo
Que tinham se escapulido
A raposa muito nervosa
Por já ter tudo perdido
Se não fosse o casamento
Seu pai não tinha morrido
Só veste ela quem pode
Diabo leve o casamento
Chorando dizia o bode
Por causa do tal casório
Ia perdendo o bigode
Por tudo quanto é sagrado
Se pudesse se divorciar
Não seria mais casado
Na minha mente o camelo
Saiu mais prejudicado
A raposa apareceu
Magra nojenta e pelada
Nem o bode conheceu
Chorando amargamente
Pelo seu pai que perdeu
Disse o bode se não corro
A onça me deu um tapa
Um murro que quase morro
Culpados de tudo isso
Foi o lobo e o cachorro
Para se divorciar
E fez juramento a Deus
De nunca mais se casar
Ficou de mal com o cachorro
Pra nunca mais se falar.
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