
Eis que, novamente, adentro a sala
E olho nos olhos do meu pai
Quero fugir
Vejo-o triste na tela
Com olhar de terna inquietude
Não fujo
Prefiro mergulhar e voar, então, naquele universo
Onde o silêncio pesponteia o destino
Com linhas invisíveis
Sinto-me diminuto, ante o quadro
E ante a vida com seus truques e tramas
Mas ele está ali
Em sua fortaleza de couros e enigmas
Em sonidos retinidos e resplandecidos
Do martelo no pé-de-ferro
Conseguiria ele interceder por mim?
Poria suaves sandálias em meus pés cansados?
Poderia ele emprestar-me suas asas de anjo artesão?
Colocaria ao dispor de minha busca
A lamparina que lhe acendera à noite, os olhos em seu ofício?
De novo, penso em sair sem despedidas; sem deixar rastros
Quero sair de dentro do estigma que me ilude com palavras
Que não me põem alavancas nas mãos
Que não me movem
O estigma severo que me retém na doçura dos versos
Quando eu sinto e sei
Que os meus pés reclamam por alpercatas e botinas
Que sejam asas firmes
Que me façam caminhar, sem medo, rumo ao nunca
Olho novamente nos olhos do meu pai
E ele, silente, me diz:
Se você ficar, estarei sempre aqui
Se partir, irei também; aonde você for
Virgílio Siqueira

Do livro
NA LASCA DO MUNDO, NO OCO DO NADA E DO NUNCA
Inédito, e sem data pra sai
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