Os dedos de Seu
Domingos se movem lentamente. Há meses estavam duros, em nada parecidos com
aqueles que a diva do jazz Sara Vaughan beijou depois de vê-los incendiar as
teclas de uma sanfona no Free Jazz Festival de 1987. Nem de longe os mesmos que
Luiz Gonzaga nomeou herdeiros legítimos de seu reinado. Ao sentir a mão da
mulher Guadalupe tocar a sua, Dominguinhos a aperta forte. Sua reação mais
comovente depois de oito enfartes, 23 minutos sem oxigenação no cérebro, uma
traqueostomia, dois meses na UTI e desavenças familiares sobre seu próprio
leito até parece milagre.A luta do maior músico da cultura nordestina, um dos mais geniais instrumentistas do País, se dá em um quarto do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Assim que foi diagnosticado com um câncer de pulmão, fez tratamentos de rádio e quimioterapia sem jamais falar sobre a doença com a imprensa. Sua incapacidade de dizer não, mesmo debilitado, o levou, em dezembro de 2012, até Exu, no interior de Pernambuco, para tocar nos 100 anos de nascimento de Luiz Gonzaga. Uma decisão difícil, tomada depois de uma noite de lágrimas como respostas às súplicas de Guadalupe. “Eu dizia para ele não ir e ele só chorava. Ele nunca diz não.”
Como não entra em avião nem sob tortura, Dominguinhos saiu de carro de Recife para Exu. A cada dois quilômetros, ligava para dizer a Guadalupe como estava. Em uma ligação, reclamou de febre. “Então volta, homem. Volta pelo amor de Deus”, ela implorou. Domingos foi até o fim e tocou já sentindo o pulmão fechar. Quatro dias depois, passou mal, foi internado e começou a lutar pela vida.
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