| As melodias de Dominguinhos eram registradas em fitas cassete demoravam anos para ganhar letras, como no caso de Tantas palavras (1983), parceria com Chico Buarque. Foto: Bruno Bravo/olhONu. |
O dom para a criação foi despertado por Anastácia, com quem viveu junto durante 12 anos e assinou mais de 200 músicas. Ela conta que, certa vez, em Sergipe, durante uma turnê pelo Nordeste, Dominguinhos começou a tocar pela manhã e ela, mesmo de outro quarto, inspirou-se para escrever. Ainda no início de namoro, em 1969, fizeram De amor eu morrerei e Um mundo de amor. “Era uma declaração de amor, sem perceber”, confessa.
Djavan não esperou tanto, mas demorou um ano para devolver Retrato da vida (1998). “Eu encontrei Dominguinhos e ele me perguntou: ‘Dja, se eu te mandar uma musiquinha, você faz uma letrinha?’ Ele me enviou oito! A primeira que eu ouvi já era maravilhosa”, recorda. As outras sete permanecem “brutas”.
Outro parceiro da música popular brasileira foi o baiano Gilberto Gil, fã declarado de Luiz Gonzaga, influência direta no início da carreira musical.
Antes de escrever com ele os clássicos Lamento sertanejo (1975) Abri a porta (1979), Gil gravou Só quero um xodó (Dominguinhos e Anastácia), a primeira composição de sucesso de seu Domingos, em 1974. “Quando Xodó tocou no rádio, (Luiz) Gonzaga disse ‘eita, Neném, tu és danado mesmo’. E chorou copiosamente”, recorda a prima, Maria Lafaete Gonzaga. Ela o viu chorar duas vezes. A segunda foi com o arranjo do Quinteto Violado para Asa branca.
Dominguinhos, aliás, chegou a ser conhecido como sexto membro do Quinteto Violado, durante turnê de A feira, no início da década de 1970. Nessa época, ele e Toinho Alves compuseram Sete meninas (1975), gravada também por Jackson do Pandeiro. Também na estrada, quando se encontrava com João Silva, sempre saía uma música. “Uma vez, eu vi uma moça beijando um retrato várias vezes. Achei que era um santo, mas era o namorado dela. Quando contei a Dominguinhos, ele perguntou ‘e a música já está pronta?’”. Não estava, mas virou Retrato redondinho, umas das mais de 20 parcerias da dupla.
Em março deste ano, o cearense radicado no Recife Xico Bizerra lançou Luar agreste no céu Cariri (Passa Disco, R$23), com 11 parcerias inéditas da dupla nas vozes de Dominguinhos, Waldonys, Elba Ramalho, Guadalupe, Maciel Melo e André Rio, entre outros. As melodias foram feitas em poucas horas, durante almoço na casa do amigo Paulo Vanderley. O surgimento das canções foi registrado no vídeo Da criação à gravação, acessível no site do Viver. O dom do músico pode ser observado e compreendido em documentários, CDs e DVDs nos quais Dominguinhos desponta como talento puro por trás de uma sanfona nunca silenciada.
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