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Esse blog tem como objetivo difundir a Música Popular Brasileira em geral, seja ela qual for: a música do Sul, a musica do Cariri, a Pajeuzeira ou mesmo outros ritmos de regiões diferenciadas. Nasci no Sertão do Pajeú, lugar onde a poesia jorra com muita facilidade e que os Poetas do Repente cospem versos com uma precisão incrível. Sempre tive esta curiosidade de fazer postagens e construir um blog. Aliás, criar um blog é simples e rápido, mas, o difícil mesmo é mantê-lo vivo e pulsante. Uma tarefa difícil e tem que ser feita com muita dedicação e precisão, sei que às vezes agradamos a uns e desagradamos a outros; também pudera, não somos perfeitos e isso acontece em todas as áreas e campos de trabalho. E para que o blog aconteça, tenho que desafiar o meu tempo e fazer propagar até aqueles que acessam e fazem aquisições de temas no gênero da música, da poesia e outros segmentos da cultura brasileira. Não tenho a experiência de um Blogueiro profissional, mas, como se diz: “Experiência só se conquista com tempo, perseverança e dedicação”. É isso aí, espero que curtam esse espaço que faço com exclusividade para vocês.


Obs.: Do lado direito do seu monitor adicionei uma rádio (Cantigas e Cantos) com a finalidade de que você leia e ao mesmo tempo ouça uma seleção musical exclusivamente feita por mim. Também inserí fotos Antigas da Capital da Poesia (S. José do Egito), fotos retiradas do Baú do Jornalista Marcos Cirano.


Texto: Gilberto Lopes

Criador do Blog.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Poema dramático: "Quando eles se encontraram novamente", um poema de Rogaciano Leite

“QUANDO ELES SE ENCONTRARAM NOVAMENTE”
Poema Dramático
Autor: Rogaciano Leite
Nota: Poema dramático representado na “Maloca dos Barés”, em Manaus, pelo autor e pela radiatriz Carolina Lander, na noite de 8 de outubro de 1949.
(Ele era um adolescente poeta, rico apenas de talento e bom coração. Ela era quase criança, filha de um milionário egoísta. Amavam-se desde a infância, com um desses amores que nunca morrem. Mas entre eles dois havia essa montanha chamada PRECONCEITO SOCIAL. E o pai mandou-a para terras distantes, a fim de fazê-la esquecer aquele amor “sem futuro”. Não mais uma só noticia, nem sequer endereço. E o poeta partiu também pela vida, exilado em si mesmo. Adquiriu fama e glória, mas nunca pôde esquecer o seu primeiro e desmedido amor. Decorridos longos anos, cabelos grisalhos e semblante experimentado, ei-lo de volta aos mesmos sítios em que nascera o seu maior romance. Está sentado no mesmo banquinho da praça onde recitava madrigais ao ouvido de sua linda Musa, - de quem nada sabe a respeito, nem mesmo se inda vive. Tudo está mudado. Somente a Saudade se reflete em tudo e em tudo fala, Numa linguagem de angustiante recordação. O bulício das folhas já não tem aquela festa musical de outrora! Apenas uma pluma de luar suaviza o rosto pálido e a cabeleira descorada do poeta. Agora, é a vez do Destino: Aquela que ele jamais esquecera aparece por um acaso e seus olhos reconhecem naquele homem triste o seu amor primeiro. Ninguém descreveria tamanha surpresa! Ele, porém, não a reconhece. Feições gastas, fisionomia irreconhecível, sufocando a maior emoção de sua vida, ela disfarça-se habilmente numa leviana qualquer e ao passar perto dele deixa cair um lenço a seus pés. Apanhando o lenço perfumado ele o restitui cavalheirescamente à transeunte anônima, que lhe agradece.)
ELA:
Agradecida, sim!
O POETA:
Por nada! Com prazer...
Eu tenho mais razão para te agradecer...
ELA:
Por quê?
O POETA:
Porque senti nesse perfume, agora,
O perfume de alguém que vi partir, outrora, 
Deixando um turbilhão de cousas dentro em mim!
ELA:
Algum passado?...
O POETA:
Um sonho...
ELA:
Irrealizado?
O POETA:
Sim!
ELA:
É por essa razão que estás tão solitário?
O POETA:
A solidão me faz um bem extraordinário...
ELA:
Recordar?...Esquecer?...
O POETA:
Qualquer cousa que o valha.
ELA:
Sempre é bom recompor o que o Destino espalha:
Se viver é sentir, recordar é viver...
O POETA:
Mas a dor de lembrar suplanta a de morrer!
ELA, pedindo licença para sentar:
Permites-me?
O POETA:
Pois não.
ELA:
Não te importuno?
O POETA:
Em nada:
É nobre ter-se ao lado alguém que nos agrada!
ELA:
Finalmente, a que tanto a solidão te exorta?
O POETA:
A reler velhos trechos de uma historia morta,
Algumas podres folhas de Felicidade
Que o tempo encadernou no Livro da Saudade!
ELA:
Amaste ardentemente?...
O POETA:
Amei, como jamais 
No mundo pôde haver dois amores iguais!
ELA:
Interessa-me ouvir tua história... me conta...
O POETA:
Tenho-a toda de cor, à flor dos lábios, pronta,
Mas não convém contá-la... É triste e amargurada!
ELA:
Eu também trago em vida a minha alma enlutada,
E saberei sentir tua pungente história...
O POETA:
É uma chapa de dor velada na memória!...
Eu era um sonhador, um moço altivo e belo,
Tinha auroras na fronte e estrelas no cabelo!
Gostava de cantar nas noites enluaradas
Acordando o Silêncio e amando as madrugadas!
A vida era uma festa em que a Noiva é a Ventura
Com grinaldas de riso e adornos de Ternura!
Foi quando alguém surgiu clareando a minha festa
Como as plumas do sol nas asas da floresta!
ELA:
Foi teu primeiro amor?
O POETA:
E único, afinal,
Porque noutra mulher não tive amor igual!
Minha vida ao seu lado era um prazer eterno:
Eu não queria o Céu e nem temia o Inferno!
Quando Ela me falava a sua voz era um verso
Num delírio de sons acordando o Universo!
Tinham tanta harmonia aqueles sons humanos
Que eu julgava assistir a um noivado de pianos!
Quando seu lábio róseo um beijo me ofertava
As estrelas sorriam... todo o céu brilhava!
As suas tranças loiras eu julgava, ao vê-las,
Que eram felpas de luz nos grampos das estrelas!
Nos seus olhos bonitos, meigos como um pombo, 
Eu via um Novo Mundo... como viu Colombo!
Depois, Ela partiu... e a minha linda festa
Se escondeu como o sol nas plumas da floresta!
ELA:
E nunca mais soubeste algo sobre seu fim?
O POETA, desiludido:
Não! Só sei que partiu... e se esqueceu de mim
ELA:
E... se um dia a encontrasses a amarias ainda?
O POETA, solícito:
Claro. Quando a gente ama o amor nunca se finda!
Depois que Ela partiu busquei novos amores,
Mas em todos só tive espinhos entre flores...
Nunca mais encontrei um beijo, um olhar, um gesto
Que me encantasse a vida! E hoje eu vivo do resto
Desse amor que passou, dessa ventura morta,
Cuja recordação me fere e me conforta!
(Um pouco de silêncio. As estrelas piscam no céu. Mistérios e emoções envolvem os dois. O Poeta tem nos olhos um sereno de lágrimas. Agora, é Ela quem vai contar a sua história.)
ELA:
Por tudo o que me dizes, nossas pobres vidas
Em matéria de amor são muito parecidas!
Eu também fui feliz, tive a vida risonha
Como o dia que nasce e como a flor que sonha!
A minha mocidade era o sorrir das horas
Numa estrofe de luz no lábio das auroras!
Os homens me queriam como o fogo a chama,
Como a noite o silêncio e como o orvalho a rama.
Eu já amei também um poeta assim como este
Que aqui pude rever quando te descreveste
Ao tempo em que adoraste essa mulher tão linda
Que se um dia a encontrasses a amarias ainda!
O POETA, curiosamente:
E esse poeta inda vive?
ELA:
E com que glória e fama!...
Só eu é que encarcero dentro d´alma um drama
De desespero atroz, de dor e de desdém! ...
O POETA:
Mas... a tua esperança já morreu também?
ELA:
Até eu já morri! O que em minh’alma resta
É um sepulcro de noiva – o término da festa!
Sou a mais desgraçada e infeliz das mulheres!
Contarei minha história toda – se quiseres...
O POETA:
Conta-a. Fala-me mais desse poeta que amaste!
ELA, emocionada:
Não há nada que turve, que descore e afaste
O seu amor que vive no meu pensamento
Num misto de revolta e de deslumbramento!
O poeta que eu amei tinha aqueles carinhos
Que as avezinhas têm ao preparar seus ninhos!
Quando Ele me falava da Felicidade
Eu tinha sensações de eterna mocidade!
Beijá-lo era dormir para acordar num poema,
Na ventura maior, na vibração extrema!
Dos seus dedos sutis as cálidas blandícias
Contavam no meu rosto o sonho das carícias!
Seus cabelos, que eu tanto afagava ao relento,
Eram cordas de amor na afinação do vento!
A sua alma era um livro aberto nos meus dedos
Cheio de inspirações, de afeto e de segredos!
O POETA:
E por que se desfez tanta ilusão dourada?
ELA, num gesto de revolta:
Por mero preconceito apenas e mais nada!
Meu pai, rico e orgulhoso, alma cruel e abjeta,
Achava ser um crime a filha amar um poeta!
Julgando-o sem valor, um túmulo de sonhos, 
Apontou-me a ambição de mundos mais risonhos,
Como se eu não tivesse ao menos liberdade
De amar a quem quisesse e ter felicidade!
O POETA:
Então que fez teu pai, de modo assim tão régio?
ELA:
Exilou-me em Paris! Meteu-me num colégio
Onde passei chorando a adolescência inteira,
Tendo somente a dor por ímpia companheira!
O POETA:
E depois que voltaste?
ELA:
Inda mais aviltante!
Obrigou-me a noivar com um ricaço ignorante,
Só porque possuía uma fortuna incrível
E tinha socialmente o nosso mesmo nível!
O POETA:
Finalmente, atendeste a teu pai avarento?
ELA, decidida:
Não! Seria ultrajar meu próprio sentimento,
Abrir a flor do seio a um estúpido qualquer
E vender a um burguês meu corpo de mulher!
Só se deve casar com aquele que a gente ama, 
Com quem o corpo exulta e o coração se inflama!
Aceitar como esposo um homem sem amá-lo
É tê-lo por marido e não poder honrá-lo:
Pois mesmo que num beijo o lábio ardente cante,
“O corpo está presente e a alma está distante!”
Do que me valeria o luxo, as festas vãs,
Se eu nunca esqueceria as límpidas manhãs 
Em que nós, – como as aves soltas nos caminhos –
Vivíamos num céu de amor e de carinhos?!...
E assim, vendo que mesmo entre a seda e o dinheiro
Jamais olvidaria o meu amor primeiro,
Não quis aumentar mais minha infelicidade
E agora estou vivendo apenas de Saudade! ...
O POETA, preocupado com aquela estranha coincidência:
Se encontrasses também esse poeta que amaste 
Que farias, então?
ELA, visivelmente nervosa, porém resistindo à emoção:
Não há frase que baste
Pra dizer a emoção desse feliz momento!
Ajoelhada a seus pés, chorando o meu tormento, 
Pediria, fitando os seus olhos serenos,
A glória de morrer dando-lhe um beijo, ao menos!
O POETA, receoso do desfecho:
Não guardas desse poeta as lembranças de um dia.
Uns versos, uma carta, uma fotografia?...
ELA, mostrando um antigo retrato dele, pendente do colo, emoldurado em ouro:
Guardo... e toda a minh´alma vive presa aqui!
(Ambos levantaram-se, fortemente emocionados)
O POETA, possuído de indescritível surpresa:
Meu retrato!!! Quem és?
ELA, entre lágrimas e soluços:
Sou a triste Avany!...
Minha face encovada, as rugas do meu rosto
São frisos de amargura e marcas de desgosto,
O fel do desespero, as dores da agonia
Dos dias que passei na esperança de um dia!
As noites de vigília, as horas de tristeza
Mataram meu olhar, tiraram-lhe a beleza!
Hoje, eu sou simplesmente um vulto de Saudade
Gerado na ironia da Fatalidade!
Meu esplendor morreu! Sei que não mais me queres!
Entretanto, a mais triste e infeliz das mulheres
Vem beber o perdão nos teus olhos serenos
E pedir pra morrer dando-te um beijo, ao menos!
O POETA, abraçando-a fortemente, com a voz entrecortada:
Avany! ... Meu amor!... Amo-te mais ainda,
Porque quando a gente ama o amor nunca se finda!
FIM
Fonte: Facebook de Marcos Passos / Saulo Passos



Um comentário:

  1. É uma das obras de Rogaciano, que transmite, lealdade e pureza.

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