
Poema Dramático
Autor: Rogaciano Leite
Agradecida, sim!
O POETA:
Por nada! Com prazer...
Eu tenho mais razão para te agradecer...
ELA:
O POETA:
Porque senti nesse perfume, agora,
O perfume de alguém que vi partir, outrora,
Deixando um turbilhão de cousas dentro em mim!
ELA:
O POETA:
Um sonho...
ELA:
Irrealizado?
O POETA:
Sim!
ELA:
É por essa razão que estás tão solitário?
O POETA:
A solidão me faz um bem extraordinário...
ELA:
Recordar?...Esquecer?...
O POETA:
Qualquer cousa que o valha.
ELA:
Sempre é bom recompor o que o Destino espalha:
Se viver é sentir, recordar é viver...
O POETA:
Mas a dor de lembrar suplanta a de morrer!
ELA, pedindo licença para sentar:
Permites-me?
O POETA:
Pois não.
ELA:
Não te importuno?
O POETA:
Em nada:
É nobre ter-se ao lado alguém que nos agrada!
ELA:
Finalmente, a que tanto a solidão te exorta?
O POETA:
A reler velhos trechos de uma historia morta,
Algumas podres folhas de Felicidade
Que o tempo encadernou no Livro da Saudade!
ELA:
Amaste ardentemente?...
O POETA:
Amei, como jamais
No mundo pôde haver dois amores iguais!
ELA:
Interessa-me ouvir tua história... me conta...
O POETA:
Tenho-a toda de cor, à flor dos lábios, pronta,
Mas não convém contá-la... É triste e amargurada!
ELA:
Eu também trago em vida a minha alma enlutada,
E saberei sentir tua pungente história...
O POETA:
É uma chapa de dor velada na memória!...
Eu era um sonhador, um moço altivo e belo,
Tinha auroras na fronte e estrelas no cabelo!
Gostava de cantar nas noites enluaradas
Acordando o Silêncio e amando as madrugadas!
A vida era uma festa em que a Noiva é a Ventura
Com grinaldas de riso e adornos de Ternura!
Foi quando alguém surgiu clareando a minha festa
Como as plumas do sol nas asas da floresta!
Foi teu primeiro amor?
O POETA:
E único, afinal,
Porque noutra mulher não tive amor igual!
Minha vida ao seu lado era um prazer eterno:
Eu não queria o Céu e nem temia o Inferno!
Quando Ela me falava a sua voz era um verso
Num delírio de sons acordando o Universo!
Tinham tanta harmonia aqueles sons humanos
Que eu julgava assistir a um noivado de pianos!
Quando seu lábio róseo um beijo me ofertava
As estrelas sorriam... todo o céu brilhava!
As suas tranças loiras eu julgava, ao vê-las,
Que eram felpas de luz nos grampos das estrelas!
Nos seus olhos bonitos, meigos como um pombo,
Eu via um Novo Mundo... como viu Colombo!
Depois, Ela partiu... e a minha linda festa
Se escondeu como o sol nas plumas da floresta!
ELA:
E nunca mais soubeste algo sobre seu fim?
O POETA, desiludido:
Não! Só sei que partiu... e se esqueceu de mim
ELA:
E... se um dia a encontrasses a amarias ainda?
O POETA, solícito:
Claro. Quando a gente ama o amor nunca se finda!
Depois que Ela partiu busquei novos amores,
Mas em todos só tive espinhos entre flores...
Nunca mais encontrei um beijo, um olhar, um gesto
Que me encantasse a vida! E hoje eu vivo do resto
Desse amor que passou, dessa ventura morta,
Cuja recordação me fere e me conforta!
Por tudo o que me dizes, nossas pobres vidas
Em matéria de amor são muito parecidas!
Eu também fui feliz, tive a vida risonha
Como o dia que nasce e como a flor que sonha!
A minha mocidade era o sorrir das horas
Numa estrofe de luz no lábio das auroras!
Os homens me queriam como o fogo a chama,
Como a noite o silêncio e como o orvalho a rama.
Eu já amei também um poeta assim como este
Que aqui pude rever quando te descreveste
Ao tempo em que adoraste essa mulher tão linda
Que se um dia a encontrasses a amarias ainda!
O POETA, curiosamente:
E esse poeta inda vive?
ELA:
E com que glória e fama!...
Só eu é que encarcero dentro d´alma um drama
De desespero atroz, de dor e de desdém! ...
O POETA:
Mas... a tua esperança já morreu também?
ELA:
Até eu já morri! O que em minh’alma resta
É um sepulcro de noiva – o término da festa!
Sou a mais desgraçada e infeliz das mulheres!
Contarei minha história toda – se quiseres...
O POETA:
Conta-a. Fala-me mais desse poeta que amaste!
ELA, emocionada:
Não há nada que turve, que descore e afaste
O seu amor que vive no meu pensamento
Num misto de revolta e de deslumbramento!
O poeta que eu amei tinha aqueles carinhos
Que as avezinhas têm ao preparar seus ninhos!
Quando Ele me falava da Felicidade
Eu tinha sensações de eterna mocidade!
Beijá-lo era dormir para acordar num poema,
Na ventura maior, na vibração extrema!
Dos seus dedos sutis as cálidas blandícias
Contavam no meu rosto o sonho das carícias!
Seus cabelos, que eu tanto afagava ao relento,
Eram cordas de amor na afinação do vento!
A sua alma era um livro aberto nos meus dedos
Cheio de inspirações, de afeto e de segredos!
E por que se desfez tanta ilusão dourada?
Meu pai, rico e orgulhoso, alma cruel e abjeta,
Achava ser um crime a filha amar um poeta!
Julgando-o sem valor, um túmulo de sonhos,
Apontou-me a ambição de mundos mais risonhos,
Como se eu não tivesse ao menos liberdade
De amar a quem quisesse e ter felicidade!
Então que fez teu pai, de modo assim tão régio?
ELA:
Exilou-me em Paris! Meteu-me num colégio
Onde passei chorando a adolescência inteira,
Tendo somente a dor por ímpia companheira!
O POETA:
E depois que voltaste?
ELA:
Inda mais aviltante!
Obrigou-me a noivar com um ricaço ignorante,
Só porque possuía uma fortuna incrível
E tinha socialmente o nosso mesmo nível!
O POETA:
Finalmente, atendeste a teu pai avarento?
ELA, decidida:
Não! Seria ultrajar meu próprio sentimento,
Abrir a flor do seio a um estúpido qualquer
E vender a um burguês meu corpo de mulher!
Só se deve casar com aquele que a gente ama,
Com quem o corpo exulta e o coração se inflama!
Aceitar como esposo um homem sem amá-lo
É tê-lo por marido e não poder honrá-lo:
Pois mesmo que num beijo o lábio ardente cante,
“O corpo está presente e a alma está distante!”
Do que me valeria o luxo, as festas vãs,
Se eu nunca esqueceria as límpidas manhãs
Em que nós, – como as aves soltas nos caminhos –
Vivíamos num céu de amor e de carinhos?!...
E assim, vendo que mesmo entre a seda e o dinheiro
Jamais olvidaria o meu amor primeiro,
Não quis aumentar mais minha infelicidade
E agora estou vivendo apenas de Saudade! ...
Se encontrasses também esse poeta que amaste
Que farias, então?
Não há frase que baste
Pra dizer a emoção desse feliz momento!
Ajoelhada a seus pés, chorando o meu tormento,
Pediria, fitando os seus olhos serenos,
A glória de morrer dando-lhe um beijo, ao menos!
Não guardas desse poeta as lembranças de um dia.
Uns versos, uma carta, uma fotografia?...
Guardo... e toda a minh´alma vive presa aqui!
Meu retrato!!! Quem és?
Sou a triste Avany!...
Minha face encovada, as rugas do meu rosto
São frisos de amargura e marcas de desgosto,
O fel do desespero, as dores da agonia
Dos dias que passei na esperança de um dia!
As noites de vigília, as horas de tristeza
Mataram meu olhar, tiraram-lhe a beleza!
Hoje, eu sou simplesmente um vulto de Saudade
Gerado na ironia da Fatalidade!
Meu esplendor morreu! Sei que não mais me queres!
Entretanto, a mais triste e infeliz das mulheres
Vem beber o perdão nos teus olhos serenos
E pedir pra morrer dando-te um beijo, ao menos!
Avany! ... Meu amor!... Amo-te mais ainda,
Porque quando a gente ama o amor nunca se finda!
É uma das obras de Rogaciano, que transmite, lealdade e pureza.
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