Subgrupo de cangaceiros comandados por Zé Sereno e
Mané Moreno
Grupo O Cangaço
... um certo acontecimento na localidade de Pia
Nova, deixa familiares e vizinhos com uma profunda tristeza. Acontece que um
grupo de cangaceiros assassinam sogro e genro numa ação de monstruosa
criminalidade.
São executados o pai de João Torquato, José Torquato, e seu cunhado Firmino.
Daí por diante a angustia, tristeza e revolta corroem o íntimo do jovem que
tinha muitos planos para a vida. O sofrimento interno o faz perder toda e qualquer
perspectiva de vida futura. Cabisbaixo, vendo a todo instante a imagem do pai
naquele ataúde, sendo colocado dentro daquele buraco profundo... seu último
adeus. Quando as lembranças da sua voz, do seu jeito, da cor do seu rosto, da
maciez de seus cabelos quando, com muito amor e respeito afagava, a angustia
aumenta por saber que perdera-o sem motivo. Não fora um chamado de Deus.
Anteciparam sua 'viagem' simplesmente por maldade. Um bando de proscritos, não
só mataram seu 'véio' e seu cunhado, mas, sua alegria, esperança e sensatez.
Toda a vizinhança ficou comovida com os assassinatos do sogro e do genro
naquele recanto de terra esquecido pelas autoridades. Aos poucos, um sentimento
turvo, mesquinho, chegando a sentir o cheiro do sangue que havia de ser
derramado, invade e toma por completo o corpo, a mente e a alma do jovem João
Torquato. Virou uma obsessão vingar seu querido genitor.
Sua índole nunca fora de bandido, mesmo tendo os 'porquês'...com as razões
maiores que poderia ter, não entrara nas fileiras das veredas dos fora- da -
lei. Entrou para a Força Policial que dava combate aquelas feras humanas que
lhe tiraram o prazer de pedir sua bênção e escutar uma resposta trazida pelas
ondas sonoras geradas nas cordas vocais da garganta de seu pai.
Após entrar nas Forças Especiais, as Volantes, seu pensamento não muda nem um
pouco. Continua na busca dos assassinos que mataram seu pai. Tem vários
comandantes, famosos na História do Fenômeno Cangaço.
Em determinado dia, estando com o companheiro de farda Chico Amaral, veem um
bando de cangaceiros. Procura , no local, um lugar adequado para enfrentar
aquele grupo de bandidos. No início da 'peleja', seu parceiro se acovarda e
corre, ficando só na empreitada contra os bandoleiros.
O valente João Torquato - lampiaoaceso.blogspot.com
João,
vislumbrando, dentre os componentes daquele grupo, um homem muito forte, de
corpanzil avantajado, que caminha a frente dos outros, de imediato vem na mente
que seria o famoso bandoleiro Corisco. Então Torquato atira de ponto. Acerta em
cheio aquele corpo enorme, levando-o ao seco solo sertanejo sem vida. No
entanto, não tratava-se do subchefe Corisco e sim do cangaceiro Guerreiro que
vinha na vanguarda do grupo. Talvez como batedor por ordens do chefe.
Continuando o embate, ao som do disparo, os outros cabras jogam-se por terra a
fim de protegerem-se. João Torquato segura, já sozinho, o fogo. Sua posição era
privilegiada, com bons anteparos naturais evitando assim, ser atingido pelas
balas inimigas.
O cangaceiro Corisco - lampiaoaceso.blogspot.com
Prosseguem-se os disparos, acompanhados de frases fortes em desafios de ambos
os lados. Corisco, com pouca munição, quer evitar a continuação do combate,
mas, ao virar-se para adentrar na mata, escuta a voz desafiadora de João. Ora,
nunca tinha corrido com medo de ninguém, por que correria daquele 'macaco'?
Mas, de maneira alguma. João, dosando seus disparos, consegue manter a turba
distante. De repente nota um vulto movendo-se sorrateiramente, se arrastando
mesmo, na direção de um de seus flancos. Se atingisse, o cangaceiro, seu
objetivo, deixaria ele em maus lençóis, pois teria que defender duas frentes ao
mesmo tempo. Sabedor do perigo, faz mira, prende a respiração e faz fogo.
Atingido, o bandido grita de dor e fica contorcendo-se. Vendo que seu tiro não
fora fatal, protegido, chega-se para junto do bandoleiro e desfere-lhe vários
golpes com o coice do mosquetão, terminando de dar cabo daquele inimigo.
Volta sua atenção para o restante do grupo, que havia tido duas baixas,
Guerreiro e Rouxinho, esse último, apenas um garoto, mas, tão fatal quanto
qualquer outro de seus companheiros. Ver Corisco se afastando e começa a dizer
que não fuja, que fique para continuarem lutando. Como sempre, Corisco, no
reflexo dos valentes, gira o corpo na intenção de atirar na direção que vinha
aquela voz que tanto incomodava-o. Nesse instante, o valente volante atira. O
projétil da sua arma vai de encontro ao braço direito do chefe cangaceiro.
Encontrando pouco obstáculo, a bala prossegue seu caminho e atinge o outro
membro superior do "Diabo Louro".

A sua companheira, a cangaceira Dadá, vira uma fera. Torna-se em um obstáculo
para que o volante não termine com a vida de Christino Gomes. Ela saca de sua
pistola e dispara todos os projéteis na direção do soldado João Torquato.
Acabam-se as balas... não há tempo nem como recarregar o carregador. Dadá
agacha-se e 'cata' algumas pedras. Começa a atacar o volante arremessando
pedras... o volante faz mira e aperta o gatilho, clic, também está
descarregado. Rapidamente leva a mão no bornal a procura de mais balas.
Encontrando-as, recarrega sua arma e quando faz pontaria, sente uma dor
horrível na mão. Seus companheiros chegam e o confundem com um cangaceiro.
Então atiram, acertando sua mão.
No instante que acabam-se as pedras colhidas e arremessadas, Dadá volta-se na
direção de Christino e o empurra para dentro da mata. Saindo rapidamente da
linha de tiro.
Para mim, nesse momento deu-se fim no cangaceiro Corisco. As sequelas desses
ferimentos não deixam mais o valente alagoano combater, lutar com armas de fogo
e/ou brancas. Termina, no instante em que a bala da arma do soldado volante,
João Torquato,atinge seus braços, a trajetória de um cruel assassino. Daí para
frente, Christino segue com suas sequelas, lembranças e, quem sabe, até
remorsos pelo que cometeu Corisco.
Dadá, a companheira 'viúva' do cangaceiro Corisco, faz curativos nos ferimentos
de Christino. A mesma relata que teve que fazer desbridamento nos tecidos
necrosados. Não sabia como ele nada dizia, nem gemia, quando a pequena lâmina,
cortava sua carne para o pus, junto com sangue, acumulados, pudessem sair.
Seguindo em frente, Christino tornasse um bêbado, sem autoridade para seus
cabras. Aquele que causava medo, terror mesmo, ficara morto, no pé daquela
laje, pelas balas da arma de João Torquato. A 'viúva' Dadá, tomou as rédeas do
grupo. Impôs e ordenou. Na tolda, Sérgia cuidava com carinho e dava amor a
Christino. No acampamento, Dadá ordena, grita, torce e distorce, os poucos
cangaceiros que permaneceram no grupo.
Os jornais, naquela época, noticiam que Corisco iria se entregar. Christino
Gomes ainda cogita uma entrega com autoridades, mas, a 'viúva' Dadá, não
permite que ele entregue-se. Como? Impossível, pois perdera seu cangaceiro há
algum tempo atrás e, de maneira alguma, iria permitir que Christino tomasse o
lugar de Corisco na História.

O jovem
Christino Gomes morto - Grupo LCN
Pouco tempo depois, uma volante, comandada pelo tenente Zé Rufino, quase no
ocaso de uma tarde, já se notando as primeiras sombras da noite, as quais
trazem sempre os espectros daqueles que foram vítimas, tanto por cangaceiros
como pelos volantes, quase no final do mês dedicado a Maria, mata o jovem de 38
anos, Christino Gomes da Silva Cleto.
Por Sávio Siqueira
Fonte: Blog Ofício
das Espingardas
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