
Que dizia todo dia:
– Pode andar remendado,
Contudo nunca podia
Andar sujo pelos cantos
Essa era a filosofia.
– Tem um sujo que não sai
Nem com água com sabão,
Quarando dias não vai
Ser limpo nem esquecido
É o roubo, disse papai.
Como me lembro também
De Tio Chico Cachico
Que era pra nós armazém
De história pra contar
Da terra, céu e além.
Era um homem tranqüilo
Nunca se preocupava
Nem com isso, nem com aquilo
E vivia viajando,
Assim posso defini-lo.
Depois do nosso jantar
Pra gente uma história
Que ouviu alguém contar
Dum ladrão e dum político
Das terras do além-mar.
Ele disse que existia
Muitos ladrões, traficantes
De toda categoria,
Mentirosos, enganadores
Em todo ponto se via.
Muito rico, poderoso,
Temido na capital,
Respeitado, rigoroso;
Quando algo dava errado
Ficava mais perigoso.
Uma visita surpresa
Do prefeito do lugar
Que estava na redondeza.
Querendo falar com ele
Foi a sua fortaleza.
Falou o prefeito dando
Um abraço e um presente
E a mão dele apertando:
– Eu estou muito feliz
Por estarmos celebrando…
Muito mais do que perfeito,
Louvável, satisfatório
Como se ganha respeito
Desse amigo que está aqui
Bem guardado no meu peito.
Perguntou: – O que deseja?
Com esse discurso belo,
Me diga logo o que almeja,
Deixe de tanto arrodeio
Porque não sou de peleja.
Estou em vossa presença
Pra solicitar apoio
De sua vontade imensa,
Um pouco de capital,
Essa é só minha pretensa.
– Eu não sou homem sabido
Do colégio fui expulso
Das letras sou um fugido,
Mas sei muito bem quem é
Ladrão, igual a mim, fingido.
Porém com uma condição:
Que você me ensine a ser
Político dessa nação.
Respondeu o prefeito: – Claro!
Veja a primeira lição!
Nunca diga “não” a alguém,
O que tem se ofereça,
Até mesmo o que não tem,
Sem poder fazer prometa,
Isso é o que nos mantém.
Diga que ama sem amar,
Coma qualquer porcaria,
Dê com a mão sem precisar,
E sem ter graça ria…
Somente para enganar.
Mande santos-calendário
Desejando boas festas.
Não perca um funerário,
Sem nenhum esforço chore
Fingindo ser solidário.
Dê um brilhoso caixão,
Um ramalhete de rosas,
Aperto de mão em mão,
Diga que vá procurá-lo
Pra comer de seu pirão.
Não tem mais nenhuma cura.
Cesta básica de arroz,
Sal, farinha e rapadura.
Litros de leite de soja
E doses de cana pura.
Decore o nome do povo,
Abrace abraço fedido,
Dê cheiro em menino novo
Diga que passou o dia
Andando só com um ovo.
De babões pra defender,
Divulgar tudo que faça,
Mesmo sem verdade ser.
Mas sabe como é babão,
Gritem eles sem dever.
E diga que é atacado
Pelo seu adversário
Que não passa dum safado.
Esconda-se do povão
Depois dele ter votado.
Disse: – É mesmo que está vendo
Todos os políticos daqui.
Mas Tio Chico fazendo
Um gesto co’a sua boca
Não pára a prosa dizendo:
De ensino-aprendizagem
O ladrão decide ser
Parte dessa plumagem:
Que a gente empurra, empurra…
Sem ver nenhuma vantagem.
– Eu quero participar
Da divisa do dinheiro,
Muito fácil de pegar,
Sem utilizar revólver
Só papel para assinar.
Eu quero ter mais de cem,
Pra ir ao fundo do cofre
E buscar todo vintém.
Desviar verbas de tudo
E o povo dizer amém…
A deputado local.
Gasta muito do que tem
Como fosse um vendaval
Dando a torto e a direito
Metade do capital.
Ficando irado, raivoso,
Se perguntando: – por que
Não fui eleito fogoso?
E pediu satisfação
Ao prefeito desgostoso.
Gastando e lição tendo,
Observando seus passos,
Discursos belos fazendo.
Andando pela nação
E milagre prometendo.
Um deputado vigente?
O prefeito respondeu:
– Eu dei matéria somente
Para você ser político
Não eleito pela gente.
Lido e visto nos jornais
Como ladrão da nação,
Traficante, capataz.
É do mal embaixador
E perseguidor da paz.
– Que diacho está falando?!
Sabe você, sei também,
Que de mim está zombando,
Sendo você ladrão fino
Que do povo vem roubando.
Há bastante diferença:
Eu só roubei dos ricaços,
Empresários de nascença
Que explora o trabalhador,
Nenhum atraso dispensa.
Você mata todo dia,
Quando tira verbas públicas
Da base da moradia,
Quando tira o giz do quadro
Deixando o saber sem valia.
O direito de curar
A doença de seu povo,
Vendo na fila minguar
A nação de ponta a ponta
Morrendo em todo lugar.
Causadoras de injustiça,
Que tira de quem não deve
E dá pra quem reza a missa
Do catecismo do crime,
Inda diz que faz justiça.
Mas o que furto é a sobra,
Da sobra de sua mesa.
E vocês numa manobra,
Deixa milhares famintos
Sem fé, esperança e obra.
Dizendo ser para o bem
Da saúde, educação
E segurança também.
Mas que dinheiro sabido!
Ninguém não vê nem por cem.
De contar essa história
Falei sem papa na língua
O que estava na memória:
– São os governantes daqui
Que faz a gente de escória.
Só dizia: – Conte mais…
Hoje vejo e me pergunto:
Quem é que tem mais cartaz?
O cidadão que é roubado,
Ou os políticos de Estado
Que pouco faz pela paz.
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