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Esse blog tem como objetivo difundir a Música Popular Brasileira em geral, seja ela qual for: a música do Sul, a musica do Cariri, a Pajeuzeira ou mesmo outros ritmos de regiões diferenciadas. Nasci no Sertão do Pajeú, lugar onde a poesia jorra com muita facilidade e que os Poetas do Repente cospem versos com uma precisão incrível. Sempre tive esta curiosidade de fazer postagens e construir um blog. Aliás, criar um blog é simples e rápido, mas, o difícil mesmo é mantê-lo vivo e pulsante. Uma tarefa difícil e tem que ser feita com muita dedicação e precisão, sei que às vezes agradamos a uns e desagradamos a outros; também pudera, não somos perfeitos e isso acontece em todas as áreas e campos de trabalho. E para que o blog aconteça, tenho que desafiar o meu tempo e fazer propagar até aqueles que acessam e fazem aquisições de temas no gênero da música, da poesia e outros segmentos da cultura brasileira. Não tenho a experiência de um Blogueiro profissional, mas, como se diz: “Experiência só se conquista com tempo, perseverança e dedicação”. É isso aí, espero que curtam esse espaço que faço com exclusividade para vocês.


Obs.: Do lado direito do seu monitor adicionei uma rádio (Cantigas e Cantos) com a finalidade de que você leia e ao mesmo tempo ouça uma seleção musical exclusivamente feita por mim. Também inserí fotos Antigas da Capital da Poesia (S. José do Egito), fotos retiradas do Baú do Jornalista Marcos Cirano.


Texto: Gilberto Lopes

Criador do Blog.

sábado, 19 de setembro de 2015

ENTREVISTA: O jogo aberto de Guilherme Arantes

Cantor celebra com show 40 anos de carreira e diz que jamais haverá no Brasil um outro hitmaker como ele um dia foi


Arantes diz que não é mais possível haver um hitmaker como ele foi / JC IMAGEM

Arantes diz que não é mais possível haver um hitmaker como ele foi

JC IMAGEM


A crônica histórica da música brasileira ainda não deu a Guilherme Arantes seu devido endereço. Com Vivendo e Aprendendo a Jogar, na voz de Elis, ele inaugurou os anos 1980, a década que dá início ao fim do século 20 musical no Brasil e que, de perdida, agora vemos, nada teve. Com o sucesso gravado pela maior cantora já ouvida por este País, o antigo estudante da arquitetura da USP ganhava afagos de Tom Jobim e a bênção da ‘intelligentsia tupiniquim’: seguia sendo o grande hitmaker nacional, mas não apenas o garotão de letras diretas e melodias lindamente aderentes; não mais apenas o rostinho bonito nos programas de auditório desprezados pela engajada e metafórica MPB que ali o acolhia.

“Quando comecei, demorei para engatar a segunda marcha. O que veio me salvar foi a Elis, que também estava numa fase ruim, nem tocava nas FMs. Foi minha apresentação ao grande mundo da música”, diz ele que, ungido pela Pimentinha, fez o Brasil – do pedreiro à esquerda festiva de uísque na mão servido pela empregada sem FGTS – cantar, verso por verso, Deixa Chover, o hit com o qual o compositor ajudou a consolidar no Brasil a bem-recebida novidade nos carros da classe média. 

Com ele, o Brasil passava a respirar na freqüência radiofônica das FMs. “Nos anos 90, houve uma mudança de gostos e de moda, ficou tudo muito radical, e perdi fio da meada, o que é recorrente nesse mercado da fama. Chega um momento em que você começa a dançar”, diz Guilherme, de Salvador, onde mora, antes de embarcar para o Recife onde, hoje, faz, no Teatro Guararapes, o elogiado show em que repassa seus 40 anos de carreira. 

Alforriado das grandes gravadoras, íntimo dos humores do mercado nacional como poucos, o Guilherme de Arantes que chega hoje à cidade repassa, um a um, os hits que definiram, ao lado da inflação galopante, o passar dos anos 1980. Mas é também um Guilherme que se nega a retemperar os almoços de ontem e oferece o cancioneiro do seu muito bem recebido Condição Humana, o bem arquitetado disco de 2013 em que seu pop adulto e melódico recebeu a musculatura do rock progressivo. No disco, ele tem participações da nova cena indie da MPB – Alexandre Kassin, Adriano Cintra, Edgard Scandurra, Thiago Petit, Tiê, Tulipa Ruiz – e de seu fã-parceiro mais entusiasta, Marcelo Janeci. Até Mano Brown se revelou um fã improvável.
Aos sessenta e poucos anos, Guilherme é, de novo, ungido. E retribui o afago. “Gente como Janeci, Tulipa e Karina Buhr têm uma forma de fazer música com beleza e ligação com a arte, coisa rara hoje”, diz ele, que aponta o sertanejo e os gêneros afins como os responsáveis pela pobreza espiritual progressiva do mercado brasileiro. “Na década de 90, houve uma progressiva inclusão social, grande, mas sem o substrato da cultura. A TV teve que pensar também em não falir. E como ela não quebrou? Mantendo o mínimo de adesão com as ruas, a coisa comportamental de festa, o sertanejo, o leque, o funk, tudo voltado para eventos de massa. Quando a gente fala em quantidade, vamos sempre nivelar por baixo”, julga. “Com Lula, o povão queria era comer carne, cerveja, eletrodoméstico e muito celular”, diz ele, que não perdoa o ethos sertanejo sobre o Brasil. “Os próprios sertanejos não escutam a música que bota o pão deles sobre a mesa. Escutam pop e rock, fazem música só pra botar um Porsche na garagem”, diz, a caminho de uma liberdade pessoal ainda mais ampliada. “Aos 70 anos, serei um roqueiro do progressivo”, promete. Veja, a seguir, a entrevista completa com Guilherme Arantes, por telefone, de Salvador, onde mora:

JC - Com o atual panorama da indústria fonográfica, seria possível termos um hitmaker incansável, hoje, como você foi nos anos 1980?
GUILHERME ARANTES 
- Não, o curioso é que isso também ocorre no cenário internacional. A não ser nos países em que você tem uma classe média homogênea, é muito difícil que isso ocorra. Foi o que aconteceu na Inglaterra no final da guerra, com o surgimento da classe média que dá origem ao Led Zeppelin, aos Rollings Stones. Hoje, há os hitmakers que aparecem, mas somem rapidamente.

JC - O fim de uma hegemonia na classe média brasileira justificaria o fim da predominância da MPB?
GUILHERME ARANTES -
 Na década de 90, houve uma progressiva inclusão social, a inclusão se tornou grande, mas sem o susbtrato cultural e educacional. O Brasil foi se tornando uma terra de comportamentos mais rasos, e as televisões e as mídias foram se tornado também vítimas desses processo. É muito louco porque não é só o governo que tem que ficar pensando em não cair, a TV tem que pensar também em não falir. Como que ela não quebra? Mantendo o mínimo de adesão com as ruas, e a gente tem na rua um novelão por baixo, uma coisa comportamental apenas de festa... o sertanejo, o leque, o funk, tudo é voltado para os eventos de massa. Na época dos festivais, no auge da MPB, a gente tocava basicamente para os universitários. O povão entra em termos estéticos nos anos 90. Com Lula, o povão queria comer carne, cerveja, eletrodoméstico, celular...

JC - É quando você deixa de estar no topo das paradas de sucesso...
GUILHERME -
 Foi muita pedreira, houve uma mudança de gostos e moda e ficou tudo muito radical, minha popularidade foi até ( o disco) Planeta Água. Eu, de novo, perdi o fio da meada. Você tem um destaque por cinco anos, mas a tendência é entrar no "Já era", o que é recorrente no mercado da fama. Chega um momento em que você começa a dançar.

JC - O sertanejo vira, então, o novo ethos da música brasileira?
GUILHERME -
 No sertanejo, os próprios sertanejos escutam pop e rock internacional. Eles odeiam a música que bota o pão na mesa. O gospel, apesar de ter um valor agregado, é uma música em que ninguém tá ali de mentirinha, ninguém tá só para ganhar dinheiro, tem coerência. Eu jamais iria ficar cantando coisas que eu odeio. As pessoas hoje vão ser artistas apenas para se encher de grana, é uma farsa. O cara vive em quarto de hotel, a família morando em mansão com um Porsche na garagem. Canta pra ter um Porsche na garagem. Karina Buhr, Janeci, Tulipa, eles são idealistas, têm uma fé na arte, não é só uma música utilitária como o sertanejo. Antes, as pessoas estavam preparadas para a surpresa, não para a confirmação. Hoje, a confirmação é uma armadilha até do rock. Iron Maiden e Metallica fazem hoje ritos de repetição. Os Beatles largaram a carreira para evitar isso.
JC - O show traz seus grandes sucessos nas versões clássicas?
GUILHERME - Esse show tem algumas músicas a mais, mas é basicamente o mesmo show que eu venho apresentando dede o lançamento do Condição Humana, um disco muito bem recebido, com uma imprensa bem favorável. Tenho tocado no rádio. Hoje é tudo segmentado, e tenho sido rotulado como música contemporânea, tive uma adesão que já não vinha acontecendo nos anos 90 e 2000.

JC - No final dos anos 1970, você era também rechaçado pela turma da MPB mais engajada por preterir metáforas em favor de letras simples, diretas, abertas...
GUILHERME - 
Eu sabia que a turma da metáfora, do "Caía a tarde feito um viaduto..." ia criticar. Mas não usar metáfora foi uma aposta consciente. Nos anos 1980, após o Rock in Rio, que eu não fiz, eu fui para a a CBS, que era uma gravadora bastante agressiva no mercado de vendas. Ai, eu consegui estourar uma sequencia fabulosa de hits, Cheia de Charme, Coisas do Brasil....essa mistura da nova bossa com o pop era meu trunfo...

JC - Mas você só seria realmente respeitado a partir da Elis...
GUILHERME - Eu fui um cara muito sortudo, eu pude trafegar do pop para a bossa, pro romântico...A Elis estava fora das rádios, e eu falei que iria colocar ela de volta ao lugar que ela merece. Depois disso, abriram-se as portas da música para mim. A intelligentsia passou a me respeitar. Antes, o Pasquim, o (crítico) Tárik de Souza diziam que eu não ia dar certo. Chorei quando Tom Jobim me elogiou.

JC - Você nunca participou dos eventos de revival dos anos 1980...
GUILHERME -
 Tô fora das festas trash dos anos 1980. Fui até convidado pelo meu ex-empresário para participar de uma festa Ploc. Isso era uma visão equivocada. Eu coloquei a Elis em primeiro lugar nas rádios. Eu não sou o trash, eu sou o The best dos 80 (risos).

JC - Sua poética continua muito fresca, direta. Mas sua musicalidade é a mesma?
GUILHERME -
 O fato de não ter mais reunião de repertório, de não ter que vender meu peixe e convencer executivo, já é um lucro muito grande. A gente ouvia muita besteira, um disco era muito caro e a gente tinha que conversar muito para fazer. O declínio de popularidade de carreira me ajudou muito a melhorar minha musicalidade. A indústria se voltou para o axé, que vendia dois milhões de discos, não ía se preocupar com um cara que vendia 15 mil discos. Ano que vem, vai sair uma caixa com os 23 discos da minha carreira (pela Sony). Eu vi a caixa do Djavan, um cara que é um exemplo de conduta para mim, que não se beneficia de editais, e queria algo assim. A minha musicalidade hoje é coerente com o que eu vivi. Depois disso tudo, eu vou pro progressivo. Quero fazer um disco viajeiro, coisa meio Pink Floyd. Aos 70, eu vou estar bem roqueirão do progressivo
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Bruno Albertim

JConline

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