Vou embora do sertão
Do sol as chispas mais quentes
Parecem tições ardentes
Incendiando o espaço,
Ou picaretas de aço
Que descem rachando o chão.
Deixando em cada rachão
Os rastros do desespero.
Se não chover em janeiro
Vou embora do sertão.
Se vê na seca inclemente
Casa ficando sem gente,
Gente ficando sem casa.
Voa a formiga de asa
Assombrada com verão
Escasseia a refeição
Do peba no formigueiro
Se não chover em janeiro
Vou embora do sertão.
Com grito e com choromingo,
De leite não sai um pingo
Dos seios da mãe faminta
Um quadro que a fome pinta
Com tintas da precisão,
Onde entra inanição
De leite não tem nem cheiro
Se não chover em janeiro
Vou embora do sertão.

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