Zé cantando eu não me acanho
Pra suas frases pequenas
Mas se voar eu corto as penas
Se correr eu lhe acompanho
Cantador do meu tamanho
Vendo você me insultar
É mesmo que um jaguar
Com um rato preso no dente
Meu chicote de repente
Tá doido pra lhe pegar.
Fiz isca pra passarinho
Furei dedo no espinho
Cortei unha na enxada
Vesti roupa remendada
Coloquei cunha em machado
Com pó de café torrado
Fiz pó e sarei ferida
Já fiz das cenas da vida
O filme do meu passado
Ruminando o facheiro que engole
Onde tem uma folha não se bole
Que nem vento tem mais soprando nela
Quem olhar pelo campo ver panela
Emborcada nas cinzas do fogão
Sem ter dentro um caroço de feijão
Pra o menino que pede à mãe chorando
São dois anos de seca gastigando
As famílias sofridas do sertão.
Que já tem rachaduras no reboco
A goteira tocando um baião rouco
Numa lata da boca enferrujada
Uma cabra sem peia, outra apeiada
Que eu tanjia de casa pra o roçado
Com o peito vazando e em cada lado
Um cabrito deitado, outro mamando
vejo o trem da saudade me levando
Ao sertão que nasci e fui criado.
Minha estrela infantil se apagou cedo
Meu presente chegou causando medo
Meu passado perdeu-se na distância
Comparei a velhice com a infância
Mas notei a maior desigualdade
Que uma parte é amor, outra é saudade
Nunca finda do jeito que começa
Vi o tempo passando tão depressa
Que nem lembro se tive mocidade.
Fonte: Facebook de Severino Batista

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