
Ao jazigo cruel da indiferença"
Estratégicas na minha juventude
Onde fui tão feliz o quanto pude
Com os vigores de minha mocidade
Hoje, ambas sem autenticidade
São dois polos: o vazio e a descrença
Duas vítimas cruéis de uma sentença
Que elimina o teor da própria história
A cidade condena sua memória
Ao jazigo cruel da indiferença
Fui traquinas, brinquei de aribusca
A criança que eu fui ainda busca
No poeta a essência do ladino
O sentido que havia em meu destino
E se perdera, envolvido em desavença
Contra o mal que se impôs, e ainda pensa
Ser da mão de minha sina a palmatória
A cidade condena sua memória
Ao jazigo cruel da indiferença
Pro meu deleite, quebra-queixo e macaúba
Amendoim, picolé, bolo de puba
Bolo de goma, de milho e de macaxeira
Enxada, foice, facão, faca-peixeira
E outros ferros que a roça não dispensa
Hoje o espaço finca o ferro da ofensa
Numa alquimia esquisita, aleatória
A cidade condena sua memória
Ao jazigo cruel da indiferença
Caraíbas, Cuiabá, Curupaiti
Sempre que a chuva encantava Ouricuri
E me despertava do sono pra sonhar
Lá na Serrinha, onde eu pairava sem voar
Numa saudade convertida em recompensa
Que hoje me ensina que eu talvez ainda vença
Esse martírio que me ataca a trajetória
A cidade condena sua memória
Ao jazigo cruel da indiferença
Em que se tinge alguma essência de sagrado
À sapataria deverei ter consagrado
Os meus momentos valiosos, feito ouro
Nesse universo de luzes, meu tesouro
Resplandecido, ativado em flama imensa
Em fulgurante, reativa, acesa, intensa
Lembrança rara desse tempo e dessa glória
A cidade condena sua memória
Ao jazigo cruel da indiferença
E a choupana de seu Chico Mariano
A singeleza especial de Zé Tutano
Passa no filme da lembrança, que não seca
Feito carrinho-de-mão, pião, peteca
Um pilão velho, o parafuso de uma prensa
Minha emoção, por explodir, sempre propensa
Me abala em tudo, até por coisas irrisórias
A cidade condena sua memória
Ao jazigo cruel da indiferença

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