domingo, 17 de março de 2013

MÚSICA / CINEMA: Thiago Mendonça dá corpo e voz a Renato Russo em longa sobre o líder da Legião Urbana

"Somos tão jovens', que recria a juventude do compositor, tem estreia prevista para 3 de maio.

Ao vivo. As performances de Thiago Mendonça como Renato Russo no filme de Fontoura foram registradas com som direto Foto: Terceiro / Divulgação

A música de Renato Russo (1960-1996) entrou na vida de Thiago Mendonça de forma indireta, ainda na infância, na voz de cantoras como Marina Lima (“Ainda é cedo”) e Cássia Eller (“Por enquanto”), que sua mãe costumava ouvir em casa. O contato com a obra do músico se aprofundou quando seu irmão mais velho, já entrando na adolescência, aprendeu a tocar violão e guitarra com revistas de música cifradas com canções da Legião Urbana. Mesmo naquela época, a relação com a obra do grupo era lúdica, basicamente.
— Lembro que lá em casa tinha uma fita cassete do disco “Que país é esse?”. Mas, como só tinha 8 anos, eu ouvia muito mais canções como “Eduardo e Mônica”, porque tinha uma levada mais divertida, contava uma historinha de amor, chamava bicicleta de camelo, essas coisas. Não tinha maturidade para alcançar as letras mais politizadas do Renato — lembra o ator fluminense de 32 anos, que dá corpo e voz ao líder do Legião em “Somos tão jovens”, de Antônio Carlos da Fontoura, longa-metragem que recria a juventude do compositor.
Thiago amadureceu, passou pela fase de identificação com as letras de tom desiludido e raivoso da Legião e continuou admirando, à distância, o efeito catártico das canções nas gerações que o sucederam. Quando o diretor de “A rainha diaba” (1973) o convidou para recriar os anos de formação de Renato, em Brasília, o ator desengavetou o pouco de familiaridade que guardava do músico e fez o impossível para se cercar de fontes que pudessem fornecer elementos sobre ele.
— Eu me lancei numa busca constante de me aproximar das pessoas, das coisas e dos lugares que eram caros ao Renato — conta Thiago, que fez questão de dar entrevista e tirar fotos para esta reportagem na livraria Leonardo da Vinci, no Centro, um dos endereços preferidos do músico no Rio. — Ele era um rato de livraria.
Antes mesmo do início da pré-produção de “Somos tão jovens”, que tem estreia prevista para 3 de maio, Thiago se enfurnou semanas a fio no estúdio de Carlos Trilha, produtor dos últimos discos de Renato e amigo íntimo do compositor, quando aprendeu a manejar instrumentos musicais. Quando a produção se instalou em Brasília, três meses antes das filmagens, Mendonça levou um violão, uma guitarra e um amplificador e transformou seu quarto no Hotel Nacional em uma espécie de templo ao personagem, cobrindo as paredes com fotos, pôsteres e textos que remetiam ao universo emotivo e intelectual do jovem Renato.
— Era uma referência direta ao próprio quarto que o Renato ocupou na casa de seus pais. No início do filme, há apenas algumas fotos nas paredes, mas com o passar do tempo ela fica inteiramente tomada por material iconográfico de bandas de rock estrangeiras — explica o ator, que fez do quarto de hotel uma extensão da vida no set. — Era um lugar onde eu não me desligava da história do Renato quando voltava das filmagens. Um ponto agregador, onde a equipe, os consultores e os atores se encontravam para tocar e cantar.

Domínio da voz

Auxiliado de perto por músicos que conviveram com o líder da Legião Urbana e pela família do artista — a mãe de Renato, Dona Carminha, e a irmã dele, Carmen Tereza, eram presenças constantes no set —, Thiago dominou seu personagem nos mínimos detalhes, dos gestos à fala impostada. A maior surpresa, no entanto, é o nível de aproximação da voz do ator com a de Renato, a ponto de a produção decidir gravar as performances do líder do Aborto Elétrico — sua primeira banda, de inspiração punk — com som direto, ao vivo.
—Talvez meu timbre seja bem próximo ao do Renato, em alguns momentos e tons. Sempre houve essa preocupação de buscar a similaridade vocal, de criar um desenho da evolução da voz dele, da fase mais aguda, na época do Aborto, até se tornar um trovador solitário, quando ela fica mais grave — recorda o ator, que interpretou o cantor sertanejo Luciano, sem precisar cantar, no filme “2 filhos de Francisco” (2005), de Breno Silveira. — Mas só me senti realmente satisfeito com minha performance vocal quando filmamos uma cena em que Renato canta “Fátima”, quando ele se apresenta pela primeira vez como Renato Russo. A verdade é que só me dei conta do que tínhamos alcançado quando pude assistir ao filme pela primeira vez, no fim da semana passada.

CARLOS HELÍ DE ALMEIDA
o gLOBO

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